Regra sem Regra |Por Dabliu Junior | Os 70 anos de um sempre novo Chico Buarque

“Mesmo que os cantores sejam falsos como eu/ serão bonitas, não importa, são bonitas as canções…”

Algumas personalidades, escritores, compositores, artistas em geral, têm o poder de serem influência e referência sobre as pessoas de um modo atemporal. Diferente daquelas bandas que ouvimos na adolescência e depois recordamos com alguma nostalgia, ou daqueles que apenas marcam certas fases de nossas vidas, essas pessoas passam ao nosso lado praticamente toda a vida, do momento em que os conhecemos até nosso último instante. Por isso, nos tornamos íntimos, nos interessamos por sua obra, sua vida pessoal, e claro, a relação que as coisas pessoais e os fatos da sua vida têm com relação à sua obra. Um artista que certamente tem essa influência sobre tudo o que escrevo e o que sou hoje enquanto artista é ele, Francisco Buarque de Hollanda, Chico Buarque, pra muitos, o Chico, que hoje completa 70 anos de idade. Data marcante pra mim, e pra muitos brasileiros.

Chico tem uma carreira consagrada na música popular brasileira. Nascido em 19 de junho de 1944, além de consagrado como compositor, conseguiu nas últimas décadas se consagrar também na carreira de escritor, ganhando duas vezes o Prêmio Jabuti com seus livros Estorvo, de 1992 e mais tarde com Budapeste, em 2004. No Brasil, Chico Buarque se tornou quase uma instituição. Participou ativamente dos momentos políticos mais marcantes da história recente brasileira, entrelaçando a sua história com a história do seu país e com sua obra, sendo peça chave da opinião pública, por vezes alvo da censura – o que o obrigou a se auto exilar em plena ditadura -, e a ser voz da juventude de sua geração, e das outras que se sucederam.

Tudo começou quando, em 1966, Chico dividiu o primeiro lugar juntamente com Geraldo Vandré e sua canção “Disparada” no primeiro Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em São Paulo. A canção de Chico, “A Banda”, cantada juntamente com Nara Leão, foi tanto sucesso que a partir dali, o artista se viu exposto no país inteiro, com suas músicas sendo gravadas por Nara, pelo MPB-4, e lotava shows pelo Brasil afora. “A Banda” vendeu mais de 100 mil cópias em uma semana, além de ter sido elogiada em crônica por Carlos Drummond de Andrade. Outro fato marcante, que muito cooperou para manter Chico no estrelato foi sua participação no II Festival de MPB da TV Record, com sua canção “Roda Viva”, juntamente com o grupo MPB-4. A canção levou o terceiro lugar, perdendo para “Ponteio” de Edu Lobo em primeiro lugar, “Domingo no Parque” de Gilberto Gil em segundo, e em quarto lugar “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso. A partir daí, a música passou a ser a parte principal da vida de Chico.

Algumas características são muito marcantes, mesmo para os mais leigos na obra de Chico Buarque. Dentre elas, a mais importante, é o talento do artista para escrever no eu-lírico feminino. Chico, como ninguém, é capaz de se colocar na alma feminina, e escrever canções que interpretadas por cantoras da mais alta envergadura como Gal Costa, Maria Bethânia e Elis Regina, por exemplo, soam como se estivessem sido sentidas por suas intérpretes: parte competência das suas vozes, parte competência das palavras escolhidas por Chico, que com o passar dos anos, vão ganhando ainda mais esmero, mais cuidado e mais perfeição, e por isso, talvez, mais escassas. São Renatas, Marias, Ninas, Ritas, Carolinas, Madalenas, Bárbaras, Joanas, e infinitas mulheres às quais Chico já deu voz. Ou ele as canta, ou canta pra elas.

Não sou da opinião de que Chico Buarque não é mais o mesmo. Como muitos, por exemplo, aplaudo de pé a qualidade e genialidade do seu quarto disco de inéditas, “Construção”, e o arranjo genial de Rogério Duprat para a faixa título. Mas acredito que um artista com o passar do tempo apenas se torne melhor, amadurecido, e claro, não querendo se repetir, fica cada vez mais difícil superar grandes feitos. A despeito disso, no entanto, o último disco de Chico, de nome homônimo, lançado em 2011, traz como última faixa a canção “Sinhá”, parceria do compositor com João Bosco. A história de um escravo sendo castigado e acusado de ter visto sua sinhá se trocar, que os mais interessados pela história de Chico, ou pelos seus romances (especialmente o último, Leite Derramado), conseguem ligar a história desse escravo ao fato do próprio Chico ser herdeiro de escravos e ser, provavelmente, fruto de um romance entre um escravo e uma sinhá. Algo que só Chico Buarque, mesmo com seus 70 anos, ainda pode nos surpreender. Vida longa ao nosso Chico Buarque de Hollanda.

chicobuarque2009

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Por | Dabliu Junior

DSC_0164Quem?
Dabliu Junior é compositor da safra recente da nova MPB, lançou em 2011 seu disco “Sobre os Ombros de Gigantes” muito elogiado pela crítica, e está gravando seu segundo disco “O Jardim da Perpétua Primavera”.

 

Onde?
Site Oficial  |   Fanpage

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Posted by

Jornalista e apresentador de TV. Criador do Regra dos Terços.

2 thoughts on “Regra sem Regra |Por Dabliu Junior | Os 70 anos de um sempre novo Chico Buarque

  1. Muito bom, lindo texto! ele é e sempre será um dos melhores compositores e cantores da MPB, além de ter uma alma feminina, com certeza agrada a todos e parece bater direto no coração das mulheres, ele entende e respeita a mulher em suas canções! Longa vida a este extraordinário Chico Buarque!

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