Helena Sofia e seu “Desejo Canibal” no Teatro Paiol: sangue e chuva.

A noite em Curitiba estava cinza e chuvosa. Ela entrou no palco sob um véu negro, fumaça e luzes avermelhadas. Um cenário todo plastificado, com marcas de sangue cenográfico espalhadas, os músicos de avental também manchados de sangue cenográfico. Estava posto o clima canibal que emana da música de Helena Sofia. Acompanhada dos músicos Gladson Targa (direção musical e baixo), Leandro Superchinski (bateria) e Rafael Borba (guitarra), a compositora apresentou canções do seu primeiro disco solo “Desejo Canibal”

Helena Sofia não é tão nova na cena. No mesmo Teatro Paiol ela já havia tocado com outros trabalhos, como o Sincopé, ou acompanhando o compositor Rapha Moraes. Mas a noite de chuva e tempestade foi um cenário muito apropriado para abrigar as trovoadas da primeira vez em que ela estava no centro do palco com seu disco solo no Teatro Paiol. O trabalho de Helena vai além de uma compositora que apresenta suas canções ao violão: além de tocar acordeon, ela dá vida mesmo às suas canções na interpretação. Até mesmo mais que a voz, a expressão corporal e facial da compositora são o destaque de toda a performance. Ela gesticula frases como, por exemplo, “puta merda! Calhorda!/Quantas vezes acordei às seis/ Pra te levar de volta pra tua casa na Mercês” com força autobiográfica que faz qualquer ouvinte ficar com raiva da pessoa pra quem a música foi escrita.

Dando ainda mais peso nisso, a banda mistura harmonia e ruído, sugerindo as cenas e imagens no imaginário do ouvinte através de sons de cigarras, ruídos de máquina de escrever ou vendavais, misturados a uma pegada rock das guitarras psicodélicas de Rafael Borba, elementos que libertam as canções, antes apenas de voz e violão, de sua casa original. Influenciados pelos chamados “malditos” da música brasileira, como Itamar Assumpção, Walter Franco, Arrigo Barnabé entre outros, a banda, que se autointitula “Música Perturbada Brasileira” busca o desafio de musicar as estranhezas e letras de forma que tudo pareça ser um só embrião. E eles têm sucesso nisso.

Além dos ruídos, que assim como as incertezas e mazelas dos desamores cantados, estão ali pra incomodar propositalmente, Helena faz um set de canções mais introspectivas. Band-aid e Canção Para Dalva estão entre as melhores do show. Ela passeia pelo rock, pela valsa, pelo fado, e arrisca até uma estrofe cantada em português de Portugal. A roupagem de “Trovoada”, música inédita tocada no show, já aponta o caminho de um novo trabalho em gestação, pesado e ainda mais visceral, dando continuidade no processo com o nome “Restaram Olhos”, claramente em referência ao contexto canibal do primeiro álbum.

Helena Sofia canta de olhos abertos e gesticulando seus desamores ou amores com alma. Ela não imposta sua voz, canta pra fora como se estivesse declamando suas dores. É diferente de qualquer outra artista compositora da cena curitibana, e segue mantendo essa diferença se aliando a uma banda competente, que sabe dosar a psicodelia em suas composições. Helena Sofia é sangue e chuva. Corta, dói, desaba, mas depois que cai sempre traz um céu limpo e um tempo claro. Se saudade queima como ferro de passar, é bom que ela volte logo pra abrandar o fogo.

 Dabliu Junior

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