Café sem açúcar

Durante alguns meses no ano passado, eu lecionei voluntariamente português para refugiados em uma instituição aqui de São Paulo. Entre tantas sensações, olhares e palavras não ditas, um episódio me marcou.

Era quinta-feira à noite, minha última aula da semana. Não houve nada atípico nessa data. Ensinei as preposições, exemplifiquei, tirei dúvidas e fiz exercícios de pronúncia com meus alunos. Um deles parecia especialmente atento e, após algum tempo, atônito, com um brilho nos olhos que eu não vira desde que o conhecera. Fiquei intrigada, mas não questionei.

Na outra semana ele chegou mais cedo e perguntou se podia falar comigo. Assenti. Começou dizendo – misturando português, árabe e inglês – que havia um mês que estava no Brasil. Diariamente, a caminho do trabalho, ele tomava café em uma barraquinha na frente do metrô e a mulher que o atendia perguntava: com açúcar? E ele respondia “sem”. Confessou que ficava irritado e não entendia por que sempre recebia o seu café sem açúcar, até que, depois da minha aula sobre preposições, o motivo ficou claro. Ele confundia as palavras “sim” e “sem”. Seu sotaque árabe tampouco o ajudava. Olhando nos meus olhos e pedindo licença para segurar minha mão, disse:

– Muito obrigada por me ensinar. Graças a você eu nunca mais vou tomar café sem açúcar.

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