Como me tornei homem de verdade

Eu tinha de 15 para 16 anos, morava em Curitiba com minha mãe, estava no segundo ano do ensino médio. Tudo que eu queria era ser maneiro, para isso ia em jogo de futebol com torcida organizada, virava a noite na rua bebendo com os amigos, queria provar para o mundo que eu era macho pra caralho. Vivi coisas que eu preferia não ter vivido, me arrisquei, caminhei na linha tênue entre a rebeldia da adolescência e a perdição. Mas no fundo eu sabia não pertencer àquele mundo.

E talvez num ato heroico subconsciente de salvação, um apavoramento tomou conta de mim. Nunca me esquecerei do aperto no peito que senti naquela noite, caminhando rumo ao colégio onde eu cursava o segundo ano do ensino médio, acompanhado da minha irmã mais velha. O choro veio subindo do peito até os olhos, foi como se uma tromba d’água tomasse conta de mim, pois as lágrimas vieram rasgando o meu eu, e ali, no meio da rua eu desmoronei a chorar.

Na hora eu não sabia o que estava acontecendo, muito menos como era que eu, homem com H maiúsculo poderia ceder ao choro, assim como faziam as “mulherzinhas”. Minha irmã ficou atônita, sem saber como agir, e sem saber o que estava acontecendo. Eu não sabia explicar, e também não queria aceitar aquele estado. Respirei fundo, menti para mim e para ela dizendo que estava tudo bem, e seguimos, meio que em silêncio pelos próximos quinze minutos até chegar no colégio.

Eu tinha um grande amigo na sala, o Guilherme – saudades cara, se você estiver lendo esse texto entre em contato para resenharmos sobre os velhos tempos. A última notícia que tive do Guilherme é que ele tinha voltado do Haiti, após cumprir missão pelo Exército Brasileiro. Sei que nesse dia ele fez uma habitual brincadeira comigo logo no início da primeira aula, e isso foi o suficiente. Desabei a chorar ali mesmo, no meio da aula, sem saber o motivo, sem saber o que fazer, sem conseguir segurar a explosão de meus diabos que me rasgavam por dentro. Fugi da sala, fugi daqueles olhares.

Voltei para casa em prantos, e ao entrar, minha mãe assustada ao ver o meu rosto inchado e vermelho me perguntou o que estava acontecendo comigo, eu gritei que não sabia, subi no meu beliche, e chorei. Apertei as lágrimas e os gritos sob o travesseiro, e chorei. Chorei tanto que me lembro de pouquíssimas vezes ter repetido esse feito nessa intensidade.

Minhã mãe desesperadamente ligou para meu pai, que morava em Camaçari, região metropolitana de Salvador. Naquele instante eles decidiram que eu deveria ir passar as férias com ele. E eu fui. Fui para nunca mais ser o mesmo, fui para me encontrar nas minhas individualidades. Fui para aprender que não precisaria demonstrar para ninguém que eu era eu mesmo – tudo bem que eu só fui passar nessa prova a pouco tempo, mas o início dos aprendizados foi lá. Às vezes é necessário sair da zona de conforto, ir para um lugar onde você é quem você quiser ser. Não ter passado te faz uma pessoa com excelentes expectativas de futuro. Fiquei morando com meu pai e só voltei para Curitiba três anos depois.

Na Bahia tive minha primeira experiência profunda com a solidão, mesmo sem entender ainda o sentido dessa palavra, foi ali que ela me visitou de maneira intensa e em mim fez morada. Eu a abracei, a amei, mesmo sem saber da sua existência eu a namorava. A solidão me moldou, arrancou aquele ogro que eu era e me fez viver de uma maneira mais poética. A solidão fez de mim um barro sob a roda de madeira e me apertou, assim como faz o oleiro, modificando as minhas estruturas para que eu me tornasse a parte mais importante de mim. Ela foi minha maior companheira, e me fez entender que homem que é homem não se esconde atrás de violência e estupidez. Fui levado à reflexão, e entendi de uma vez por todas que não precisava transar com todas as mulheres que aparecessem na minha frente para ser hétero. Entendi que não preciso saber brigar para ser homem. Compreendi que não tinha obrigação de entender de mecânica por ter nascido com um pênis. Eu entendi que não precisava olhar para a bunda de uma mulher que passa ao meu lado, nem “comer todas” que me desejavam para ser macho. Ela foi minha professora, fez-me autossuficiente ao ponto de mandar às favas todos aqueles que pregam esses padrões ultrapassados.

Hoje eu me considero macho pra caralho, sabe por que? Porque eu choro todas as semanas por algo diferente, porque eu me emociono com uma boa música, porque eu não acho que existam coisas de mulherzinha, porque eu não preciso andar no meio de pessoas violentas pra me sentir aceito. Sou macho pra caralho porque desde a oitava série eu não dou um soco em ninguém, porque eu amo minha namorada ao ponto de não enxergar outra mulher na minha vida a não ser ela. Sou macho pra caralho por ter aprendido que homem que é homem tem caráter e não necessariamente força. Sou macho pra caralho por admirar mulher que é mulher pra caralho e se dá o direito de ser feminista, lésbica, trans, independente e não se considerar a parte mais frágil. Eu sim sou macho pra caralho, por ter orgulho de ter como melhor amigo um cara que não é heterossexual, por amá-lo como amo minhas irmãs. Ao analisar isso eu percebo que finalmente virei macho.

***

Tem interesse em escrever textos como esse? Expor suas crônicas, vídeos, histórias de vida ou outros trabalhos? Mande um e-mail para regradostercos@gmail.com e junte-se aqueles que resolveram sair da caixinha.

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3 thoughts on “Como me tornei homem de verdade”

  1. É por isso que eu sinto tanto orgulho de dizer que você TAMBÉM é meu melhor amigo. A cada dia que passa nos tornamos pessoas melhores por entendermos o valor de tudo isso.

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