Claustrofobia

Encosto a cabeça na porta, lá de dentro você não abre e não faz nenhum som e parece não se importar. O silêncio ficou do outro lado da maçaneta, em mim um misto de perguntas que já estão respondidas, mas eu preciso de mais e você só me diz que eu não entendo, não vou entender. Nós não temos mais 20 e poucos e nem problemas com a convivência em família, medo do escuro. Não, agora a gente paga as próprias contas, conhece o sabor do luto e se despediu diversas vezes de amores bons. Agora, entendemos o peso da solidão e aprendemos a conviver com os novos vícios. Agora, os demônios que nos assombravam- quando éramos jovens idealistas- sentam conosco e sugerem o vinho. Agora, além de separar a roupa por cores, separamos sentimentos. Amor de sexo. Carência de amor. Pele de amor. Platonismo de Aristotelismo. O meu amor do seu amor. Separamos tudo e ficamos nós, sós, um no outro.
Eu peço delicadamente: Abre. E você dá mais uma volta na chave. Deixa eu entrar um pouco, só me deixa te abraçar, só uns cinco minutos e tentar salvar essa barco náufrago, me deixa te acolher. Me acolhe. Silêncio. Você coloca um móvel para pesar a porta e te proteger da minha investida de arrombamento. Meu choro e toda a angústia de não saber o que te trancou lá do outro lado, eu calo. Engulo. Me finjo de forte. Olho ao meu redor, a casa bagunçada. No meio das minhas roupas desdobradas, a nossa dignidade. No vão dos móveis empoeirados, o nosso amor esquecido. Engulo em seco a saliva pesada e ácida. Eu imploro: Olha. Você fecha os olhos mais forte. Eu te suplico: Me ouve. Suas mãos nos ouvidos e seus gritos exagerados. Eu começo a bater na porta com mais força, você vai mais pro fundo da parede, você vira massa corrida, tinta fresca, rejunte. Envelhece o que te dava ansiedades, eu vou tentando entrar pela fechadura, você vai procurando uma janela. Arranca as unhas ao tentar abrir um buraco com os dedos.
Claustrofobia.
Abro os olhos, o suor na minha nuca e minha respiração rápida. Estou segura, minha cama. Ao lado você dorme, um sono pesado e encolhido nas cobertas. Me sinto só. Um ser só numa cama divida. 40 metros quadrados de solidão. Uma metrópole inteira sozinha, uma escuridão imensurável dentro de mim. Só. Você me vê levantando e indo até a cozinha. Quer água? Eu volto pra cama, encosto a cabeça na sua testa. Encostado em mim, você não abre e não faz nenhum som e parece não se importar. E eu peço delicadamente: Fica.
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