A síndrome da página em branco

Eu não sei se algum de vocês já passou pelo tenebroso TCC da universidade, mas é a segunda vez que enfrento isso – agora para a conclusão da minha pós-graduação. Não vou dizer que é algo simples, porque não é. TCC requer pesquisa, leitura e muita, mas muita força de vontade. Mesmo. E, como acabei subestimando esse último item (Cezar, se você estiver lendo este texto, me desculpe!), recebi uma bela lição de casa por parte de meu orientador: reescrever aquelas quase 400 palavras que saíram de forma (bem) preguiçosa em um longínquo domingo de manhã.

Acredito que isso tenha acontecido para abrir os meus olhos de vez e me fazer encarar este artigo, de míseras 15 páginas, da forma que ele realmente merece: com amor, carinho e dedicação. Pois bem, mais livros foram lidos (ou partes deles, confesso), artigos foram impressos, nomes como Umberto Eco e Michel Foucault estão pulsando diante de meus olhos por conta de suas lindas teorias sobre a literatura. Ah, sim, o tema de meu trabalho é a literatura – subversiva, ainda por cima. E se você não sabe o que isso significa, não me pergunte. É justamente para entender direito o que é essa tal subversão que estou estudando o assunto.

Foi no meio de tantas páginas e palavras (in)coerentes que cheguei na obra “Labirinto da Palavra”, de Claudia Lage. Eu já tinha lido um livro de autoria dela, que adquiri num desses sebos perdidos no litoral paranaense. Ele era de contos e lembro de como me apaixonei facilmente pelas histórias e pela forma com que Claudia escreveu todas elas. Talvez tenha sido o destino que me colocou a autora novamente em meu caminho, só que dessa vez era pra algo maior. Bem maior.

Labirinto da Palavra é um livro que contém inúmeras crônicas sobre a literatura, criação e vida literária – exatamente o que estou pesquisando, não? A ideia era ler apenas algumas partes dele, partes essas que me ajudassem na introdução de meu trabalho. Mas, conforme fui lendo, despretensiosamente, aquela forma simples e cativante de Claudia escrever foi me envolvendo. Quando dei por mim, já estava querendo compartilhar a sensação incrível que aqueles textos transmitiam para todos os amigos e colegas escritores. Não, não o fiz. Apenas compartilhei um texto em meu Facebook e que teve um like – de minha mãe, e que não, ele não foi lido por ela.

Eu me vi imersa naquela dúvidas apontadas pela autora, como o que me motiva a escrever. Quando a li ali, naquelas páginas ocres cheias de letrinha, eu pensei “EU NÃO SEI”. Eu escrevo por… escrever. Oras. Precisa de algum motivo específico? Acredite, nem Claudia soube responder a essa pergunta. E não foi só essa que ela abordou em suas crônicas. Na realidade, de onde surgiu essa, tinha muitas outras: o que é realidade?, o que é imaginação?, quais foram os livros marcantes na vida de cada grande escritor?, o que é uma escrita singular?.

Conforme devorava cada página das 190 totais, eu entrava um pouquinho mais em parafuso. É como meu psicólogo diz: levei alguns belos tapas de luva daquela escritora carioca. Porém, foi com essa mesma escritora carioca que pude enxergar que eu, a nível de escritora (coisa que não me considero como tal), possuo muita coisa em comum com aqueles nomes gigantescos que ouvimos durante toda a vida – Clarice, Lygia, Saramago

Eu, como todos esses citados, possuo sede de escrever. Eu, como todos esses autores, não consigo ler um texto de autoria própria sem querer alterá-lo. Eu, como todos esses grandes escritores, também possuo o medo de não ser lida. Eu, assim como Flaubert e Cortázar, também tenho medo da primeira e da última página de um livro escrito por mim.

Sim, eu tenho medo; de não saber como começá-las e, muito menos, terminá-las. Afinal, toda história tem começo, meio e fim. E nós, como donos da verdade daqueles pedaços de papeis, não queremos que esse fim chegue. Porque, depois dele, o que será de todo o trabalho que tivemos? O que será de nossas vidas ao ter que encarar (mais) uma primeira página em branco? Para onde será transportado todo o nosso medo de viver a realidade quando podemos, simplesmente, escrever alguns rascunhos a partir de nossa imaginação?

É, acho que encontrei a minha resposta para aquela pergunta sobre o que me motiva a escrever – os meus mais profundos e escondidos medos. E não, mesmo com a leitura desse livro maravilhoso, eu não escrevi uma página sequer de meu trabalho.

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2 thoughts on “A síndrome da página em branco”

  1. Sim, escrever é um misto de medo e amor… uma combinação que nasce da vontade de agarrar o momento e dar sentido a vida. Uma ação puxa outra. Parabéns!

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