Cabernet

Eu te perdoei quando você usou de desculpa o vinho, a solidão, a vida inteira e mais uma desculpa, só pra não assumir que estivemos envoltos das mesmas vontades.

Te perdoei quando você não sabia diagnosticar o que eu sentia e quando o frio era mais forte, no seu peito: ventania. Tua mesa organizada e seus papéis no lugar, nada de mim tinha ali, nunca fui de arrumar nada. Nunca fui da ordem. Você sabia.

Eu te ajeitei na meia luz, pouca razão e um coração decente. Decente e honesto. Mesmo quando era pouco a se dizer e muito de se sentir, houve uma decência mútua em libertar o outro de qualquer obrigação que houvesse nessa vida. Eu me fiz livre mesmo querendo pousar em você.

E hoje, chove forte e tem vento bagunçando as vidas na estrada. Tem gente se abrigando da água e eu sendo correnteza eterna, enxurrada de sentir. Lembra quando você me perguntou se a vida era mais difícil do jeito que escolhi?

Pois é.

Então, mata minha curiosidade: Cê ainda prefere Cabernet acima de qualquer coisa? Eu gostei do Malbec outro dia, não se sinta traído, por favor. Caíram as máscaras de amores ruins por aí, andei pensando em como você nunca foi nocivo, ainda que me desse medo. Então, cê ainda tem a mania de mandar as máquinas da vida pararem quando as coisas não estão certas? Eu abri uma lacuna dentro de mim para poder abrigar uma saudade estranha, um sentimento confuso, é uma coisa que eu tenho calado todo dia pra não te afastar.

Dá pra entender?

Você entenderia.

Então, seja lá onde você esteja colocando teus papéis em ordem e suas camisas por escala de cores, lembra de mim tirando o sapato e deixando na beirada da porta. Se puder, lembra que eu sujei a parede colocando os pés na parede do seu antigo escritório gelado e que você come meia pizza inteira e eu não consegui chegar nem no terceiro pedaço. Lembra do meu cabelo ocupando metade do seu colo, seus dedos desenhando meus cachos, minhas ansiedades assustando uma parcela do seu peito.

Abre um vinho bom. Coloca aquela música que eu te mostrei no ano passado.

Não precisa mais nada, pode fingir que nem foi com você.

Mas por favor, Cabernet.

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