Hoje morrerei naquela cadeira

Estou condenado à morte. Morrerei hoje naquela cadeira. Esse será o meu fim. Até aqui não tinha percebido a dimensão real do problema que tinha me metido. Eu tinha certeza de que no final tudo daria certo. Nunca me imaginei passando por esse momento, ter ciência de que esse é o seu fim é uma das piores sensações que existe em todo o mundo. Eu só tinha lido nos livros, visto nos filmes e ouvido as fofocas populares sobre como as pessoas se sentem nesse momento, mas nada disso foi tão real, tão fiel ao ponto de me adiantar um pouquinho que fosse de como me sentiria quando me encontrasse nessa situação. Tenho a oportunidade de dar o último adeus para minha família, eu choro, minha mulher tenta me acalmar me falando que voltaremos a nos encontrar em breve, mas eu não sei se acredito nessas baboseiras religiosas. Dou meu último adeus, sinto seus lábios pela última vez. Nossa, como ela é linda, e eu a deixarei aqui, sozinha, sem filhos e com um cachorro vira-lata que só sabe destruir nossos móveis. Respiro fundo, preciso manter a compostura pelo menos na frente dela. Enxugo as lágrimas, repito que a amo com todo o meu ser. Me viro, estou cercado por pessoas e ando. A cada passo que dou nesse corredor comprido, sombrio e gelado meu peito se afoga em amargura e aperto. Não há mais esperança, hoje eu morrerei naquela cadeira. Eu tinha que ter pensado nisso antes de ter feito as escolhas que fiz, mas jamais imaginava que uma simples escolha poderia ter consequências tão drásticas. Já vejo a porta por onde entrarei, minhas pernas tremem. Tenho vontade de parar, chorar, gritar, implorar perdão a Deus por ter chamado as crenças religiosas de baboseiras, mas tem muitas pessoas atrás de mim, preciso continuar. Mantenho a postura, não me permito o choro, nem a pausa na caminhada. Partirei como homem sério, que assume as consequências das suas escolhas. E eu entro no ambiente e já vejo a cadeira na qual morrerei. Sento-me. Eu mesmo aperto o sinto e respiro. Como eu nunca percebi antes o quanto é bom respirar? O ar entrando por nossas narinas, ele caminha nosso corpo adentro, enche os nossos pulmões, vitaliza nossas energias, eu deveria ter valorizado essa sensação mais vezes. Mas agora é tarde, em instantes eu morrerei nessa cadeira. Uma voz fala no auto-falante, tudo vai acontecer em instantes. Cadê o padre? Todos que estão condenados à morte tem direito de se confessarem a um padre antes de morrer. Como nunca considerei a hipótese de me confessar antes desse momento? Eu deveria ter sido mais religioso, meu lugar certamente será no inferno. Eu não quero sentir dor, já basta a vida pesada que tive até aqui, já basta o fim que por si só já é trágico, já basta estar amarrado numa cadeira, já basta eu mesmo ter escolhido as opções que me levaram até aqui, por favor, tudo menos dor. O padre não vem, mas o remédio que tomei há uma hora  começa a fazer efeito. Minhas pupilas começam a ficar cada vez mais pesadas. A cadeira treme devagar. Essa será minha última visão, em segundos eu sei que morrerei nessa cadeira. A escuridão, o silêncio, a paz. 
Sou acordado pela aeromoça, acabei de chegar no meu destino, eu estava enganado, não morri nessa cadeira. Agradeço a moça, muito linda por sinal, observo sua cintura e fico na dúvida se é fina ou afinada pela roupa, percebo seus seios volumosos e me lembro do rosto da minha mulher, não posso traí-la nem em pensamento. Temo que Deus tenha percebido o que se passou em minha mente. Fico em pé, sinto meus músculos esticando. Agradeço ao Divino por não ter me levado nessa lata que voa – nunca entendi como podem os aviões voar. Hoje mesmo vou na missa, ou amanhã, mas certamente irei antes de voltar a entrar nesse objeto perigoso e mortífero. Sempre tive pânico de avião.
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