Perdidos venceremos

Entro no táxi em São Paulo, nessa manhã de segunda que sucedeu uma noite de viagem de ônibus de seis horas partindo de Curitiba. Não dormi, não comi durante a noite, não consegui me concentrar em quase nada senão o meu enjôo que sinto quando fico em locais fechados e ônibus de viagem. O taxista que tinha marcado comigo antecipadamente não podia me atender e mandou seu amigo. Mesmo toda programada, nos perdemos um do outro na imensa rodoviária do Tietê e fiquei uns 40 minutos esperando ele me encontrar. Nisso não eram nem 7h e eu tinha que entrar no trabalho às 9h, iria me atrasar e não conseguia pensar direito. Enjoada. Com sono.

Começamos bem, o dia e a semana.

Enfim, o rapaz muito simpático se desculpou pela falha e eu assumi minha parte na culpa em não conseguir me comunicar com ele por falta de bateria no celular. Sem problemas, vamos pra casa. Já em uma altura do trajeto, nós falávamos sobre um pouco do meu trabalho e ele sobre a vida dele, entramos nas filosofias de boteco- e vamos considerar que eu estivesse bêbada de sono, então, está valendo- até ele soltar a frase mais dolorosa que eu poderia ter ouvido: “Eu sou um fracasso sabe?”

Não meu rapaz. Não faça isso. Não comigo.

Mesmo afirmando algo tão grave, ele tinha um tom leve de deboche. Quando a gente está muito decepcionado consigo, muitas vezes fugimos na piada. Piada triste de palhaços arrasados pela vida. Ele tem dificuldades em educar os filhos, toma remédios para depressão e ansiedade e tem quase certeza de que em seu casamento ele obedece, ponto. Falou das escolhas erradas que fez, das vezes que não foi o que os outros esperavam. “Eu queria entender, porque Deus me ajuda tanto se eu sou tão errado?” Coçou a cabeça feito criança tentando montar o quebra-cabeça. Eu peguei toda a bagagem que eu tenho de bons conselhos- ou seja, quase nada- e tentei burlar o sono, a ansiedade, meus problemas de me relacionar com o mundo, peguei todas as minhas escolhas erradas e coloquei de lado, escondi meus comprimidos na bagagem, parei de medir os meus pecados e tentei ao máximo dar uma palavra de motivação para aquele homem. Não consegui fazer mais do que respirar fundo e ficar sem muito a dizer, disse então meio intimidada: “E quem não tem um bocado de fracassos nessa vida moço? Não te dá preguiça conversar com pessoas perfeitas? Eu morro de tédio de quem não tem nem um pedacinho de arrependimento, gente assim não ensina nada pra nós…” E ri, na esperança de não ter sido tão fracassada assim na “operação consolo”. Ele riu alto, com gosto de alívio e depois um choro leve, pesado, daqueles que a gente chora porque está cansado demais de se segurar na vida. Eu fiquei em silêncio, sem graça.

Chegamos no meu prédio, ele pegou minha bagagem e acertamos o preço. Como se não bastasse tudo aquilo que passamos dentro do carro, ele me abraça e agradece. “Sabe dona, ainda bem que a gente encontra um pessoal fracassado por aí né? São pessoas como você que nos lembram que perfeito é só Deus mesmo, a gente está aqui é pra se encontrar.”

Não eram nem 9h. Comecei bem, o dia e a semana.

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