Um dos momentos mais tristes da vida

Sempre achei uma verdade universal o fato de que seguindo-se pela Avenida Visconde de Guarapuava em Curitiba, a exatos 60 Km/h no ponteiro de qualquer carro, é possível encontrar uma sincronia entre todos os sinaleiros e atravessá-los todos em uma única marcha, constante. Tinha começado o relacionamento haviam uns quatro meses quando tudo realmente se tornou insuportável. Não havia mais como aguentar a pressão de ter de largar antigos hábitos, conquistados em anos e anos de outros relacionamentos ainda. Havíamos prometido undos e fundos, feito planos e metas, mas a convivência me fez perceber o quanto de mim era insuportável para ela e vice versa. Às dez horas da manhã, depois de ter ido de ônibus para o centro, da Vila Acordes, no Sítio Cercado para fazer uma bateria de exames que se relacionavam àquela tosse terrível que por várias vezes a fazia vomitar tudo o que comia, que por sua vez, estava ligada a sua família extremamente opressora e tradicional eu disse: “precisamos conversar”. Aquilo foi de uma inglória, mas ao mesmo tempo me deixava mais tranquilo. Eu sabia da vida dela.

Sabia que ela estava às vésperas de uma cirurgia super agressiva e que sua família havia viajado para o nordeste do Brasil, deixando-a absolutamente sozinha. Sabia também que ela havia tentado suicídio há três dias porque terminamos oficialmente o namoro e ela havia ligado para mim enquanto tomava uma caixa de remédios. Na verdade, eu também tive uma culpa seríssima nesta coisa toda do suicídio. Eu havia combinado de sair para beber com ela na hora em que resolvi sair com meus amigos.

Minha mãe sofre muito pelo fato de que eu não tenho um “emprego fixo”. Que não coloco dinheiro regularmente na casa e que não pretendo fazer isto mas sim viver de “cultura”. Ela me apoia em toda e qualquer coisa e me defende em tudo que eu faço, ao ponto de até eu mesmo achar errado. Mas isto dá dores terríveis na barriga dela que por vezes a faz ter de ir ao hospital. Meu irmão, que tem síndrome de Down, tem mais de 120 quilos de pura falta de controle da minha mãe. Ainda ela tem a ideia fixa de querer vê-lo morrer para que eu não fique com ele depois que ela se for. A vida é dura. Alegrias são duvidosas, as pessoas estão cada vez mais tristes. Mas seguir em frente a exatos 60Km/h na Visconde ainda é um fato. E sigo, sem saber até aonde conseguirei, isto para mim também é o de menos. A verdade, que eu conheço, sempre me libertou e quanto mais a conheço, mais ela me liberta, sempre me libertará.


Crônica enviada pelo músico/leitor Asaph Eleutério. Quer ter sua crônica publicada aqui? Envie um e-mail para regradostercos@gmail.com e sigamos juntos por um mundo com mais arte e menos rancor.

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