Meus demônios de estimação

O primeiro demônio se apresentou bem vestido e sorridente, sabia colocar o guardanapo na perna com elegância e cortar a sua carne com delicadeza imensa, apaixonante. Tinha uma voz doce e segura, as mãos eram quentes e estáveis, seu cheiro misturava cigarro barato e cerveja de boteco de esquina, mas fazia eu me sentir em paz. Tomei um gole d’água de sua mão em concha e eu o reconheci como abrigo, eu poderia ter saído de dentro dele de tão íntima. Me olhou nos olhos e me perguntou há quanto tempo eu estava sentada ali esperando, eu respondi que eram apenas uns 15 anos. Ele acenou com a cabeça de maneira educada e me disse que voltaria dali cinco minutos, precisava ir ao banheiro lavar as mãos. Já se passaram uns 10 anos, ele não voltou ainda. Abandono.

O segundo demônio era pequeno, o topo da cabeça alcançava a minha cintura e tinha uma voz esganiçada. Apesar de aparecer em apenas algumas ocasiões, eu não conseguia disfarçar a sua indesejável presença, era impossível. Não sabia se portar em público e naquele dia ele veio justamente na fila do metrô lotado da estação da Luz em pleno horário de saída do trabalho pré-feriadão. Estava acenando para mim ali dos trilhos que me davam tontura só de olhar, enquanto ele pulava loucamente a minha mão suava e eu ia sufocando dentro do casaco, envolta do meu cachecol favorito, uma gota escorrendo pela minha nuca e eu fui perdendo a visão clara das coisas. Quase desmaiei. Fiquei pensando que se eu caísse ali junto ao demônio pequeno e insistente a minha morte seria imediata. Alto demais ficar ali, a linha amarela de segurança não é tão segura assim e se aquela estrutura toda desabasse? Até que o bendito do vagão parou em minha frente e deixou o demônio esmigalhado abaixo de si, eu fingi que ele não existia. Claustrofobia.

O terceiro sempre foi cruel, me acordou na madrugada chuvosa de um dia 15. Veio gritando perto do meu ouvido me mandando acordar e olhar na sacada, alguém ia conseguir subir até meu apartamento e invadir tudo, me invadir. Eu pulei da cama assustada e com a respiração ofegante acendi o abajur e fui correndo para a cozinha buscar água. Disquei o primeiro número e lá do outro lado, já no primeiro toque, atenderam perguntando o que tinha acontecido. Contei do demônio que me acorda em madrugadas sem nexo e nem aviso prévio em gritos estridentes que ficam apenas dentro da minha cabeça. É quase uma memória doente de um passado que eu jurei- eu jurei mesmo- ter superado e perdoado. Eu menti esse tempo todo, não foi? Me mandaram respirar, rezar e pegar a caixinha na cabeceira, tomei um comprimido e só acordei no horário do trabalho. Ansiedade.

Foi assim, passando de demônio em demônio que aprendi a conviver comigo e o reflexo no espelho. Foi entendendo que eles não têm hora para chegar, mas podem ser controlados com disciplina- que eu não tenho- e dedicação- que eu não tenho. Foi achando que eles iriam embora de vez e eu seria parte de uma parcela- que tempo depois descobri que se resumia em apenas 3% da população mundial- considerada socialmente normal, mas errei. Os demônios mudam de forma, trocam de pele e aspecto, mas no fundo estão saindo todos da mesma fonte. Foi me despedindo das regras que aceitei: Os demônios estão todos espalhados nas avenidas, disfarçados de bons moços com seus dentes brilhantes e podres esperando para nos engolir ou serem amansados com os tarjas e as aceitações que só chegam com o tempo, ou a gente desiste. Foi assim, olhando bem de perto as feridas, que aceitei uma realidade: Vivo na beira de um abismo entre a sanidade e a razão, entre o perdão e uma mentira saudável, entre o que eu quero e o que eu devo, entre o que eu preciso e me permito. Decidi que agora me aceito dentro desses limites todos e deixo entrar na minha vida apenas quem consegue conviver comigo e os fantasmas que me afligem. Se tornaram meu colegas, aprendemos a conviver no mínimo de paz. Estes meninos teimosos que não sabem a hora de chegar, bem ou mal, fazem parte de quem eu realmente sou. Esses perigos que vivem apenas dentro de mim e só podem ser vistos, tocados e entendidos por mim, bem ou mal, sabem exatamente quem eu fui. Superemos.

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