A caixa-preta de Chuck Palahniuk

O cianureto corria pelas veias, desativando um órgão de cada vez ou provocando asfixia súbita. De mãos dadas, os corpos caíam arroxeados ao chão, enfileirados, rumo ao descanso eterno proporcionado pela Libertação. Foi assim que a colônia de Crendice morreu.

Os sobreviventes, também conhecidos como missionários — moravam fora da colônia e trabalhavam para enviar dinheiro, a fim de expandi-la territorialmente — seguiam as instruções que lhes foram passadas durante a juventude: suicídio.

A partir da mórbida e satírica alusão ao massacre de Jonestown, o autor de Clube da Luta, Chuck Palahniuk, constrói seu segundo livro criticando as seitas religiosas e a apatia do homem moderno, representadas no protagonista Tender Branson.

Este, tido como o único sobrevivente do suicídio coletivo, tem uma vida dupla: de dia trabalha como criado em uma mansão — onde não conhece seus próprios patrões — exercendo sua mania de limpeza, demonstrando amplo e aleatório conhecimento sobre misturas químicas e formas eficientes de matar ou limpar; à noite, ele assume uma identidade, de caráter quase obsessivo, como conselheiro para suicidas.

Seu círculo social se resume à sua assistente social e ao seu peixinho dourado, religiosamente alimentado com um comprido de Valium diariamente. Esse quadro muda quando a mídia divulga massivamente sua história, ao menos a versão comercial dela, e o transforma em um messias contemporâneo.

As consequências de um estilo de vida imposto desde o princípio — na infância, pela Igreja; na juventude, pelos excêntricos patrões; na maturidade, por seu agente — são drásticas. Tender Branson decide sequestrar um avião e contar sua verdadeira história, com o auxílio da caixa-preta, enquanto o avião não se desfaz em algum lugar da Austrália.

O produto dessa narrativa é um livro razoável, em que o autor não menospreza o seu leitor. Ainda que a escrita pareça lacunosa, é possível vislumbrar aí um convite à imersão no universo tragicômico do anti-herói Branson.

Valendo-se do absurdo como vetor desapiedado para expor as vicissitudes da sociedade estadunidense, Chuck Palahniuk consegue atribuir um humor ácido, duvidoso e melancólico às linhas de pensamentos desconexos, fruto do fluxo de consciência do protagonista. Há risos reprimidos nas entrelinhas, que só um grupo particular de leitores tem a capacidade de verter em gargalhadas.

Outro recurso estilístico marcante desta obra é a numeração retroativa dos capítulos e páginas, tal como o aglomerado de pequenos círculos, que pode ser entendido como as quatro turbinas do avião prestes a falhar, imprimindo um ritmo vertiginoso à leitura.

“A verdade é que você pode ficar órfão várias e várias e várias vezes. A verdade é que isso vai acontecer. E o segredo é que vai doer cada vez menos, até você não sentir nada. Pode acreditar em mim”.

  • Nota: Este livro não é recomendado para pessoas psicologicamente sensíveis.
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