Quem merece morrer, eu ou esse morador de rua?

Estou andando no centro de Curitiba de madrugada, um morador de rua vem na minha direção enrolado no seu cobertor. Olho para ele fixamente, ele retribui o olhar, reparo no cenário ao meu redor, dormem alguns cidadãos ao fundo, uma imensidão vazia às minhas costas, resolvo encarar a situação e caminho em direção ao homem.


No último fim semana eu fui a um barzinho em Curitiba com minha namorada, o nome do lugar é Txapela. Eu estava com fome, então pedi um espetinho, paguei R$ 11 por três pedaços de gordura e alguns tomates feios em um palito. Fiquei chateado mas continuei tomando meu chopp, era aniversário de uma amiga, não dava para ir embora assim. Resolvemos nos despedir quando já tinha passado um pouco mais de uma da madrugada. A fome ainda estava presente e cada vez mais cruel. Resolvi então comprar um cachorro quente. Me dirigi até a barraquinha, minha companheira não quis um, disse que iria beliscar o meu (ela comeu quase tudo!!! que absurdo!), pedi um de 4 queijos e uma lata de Coca-cola. Paguei a conta e vi que não tinha táxi por perto. Resolvemos ir à pé até a casa dela que fica a menos de 15 minutos do local em que estávamos. Descemos pela rua XV pois é o local mais iluminado e com muitas câmeras de segurança. E foi aí que aconteceu o momento que trouxe o título pra esse texto.


A mão macia da minha namorada me lembra que tenho que ter o dobro de responsabilidade diante de tal situação. Na outra mão dela o “meu” cachorro quente, na minha mão esquerda uma lata de refrigerante que destrói os ossos. Nas mãos do morador de rua, uma marmita que certamente foi doada por voluntários que estavam passando pelo local quando eu e a Kelli (nome da minha namorada) estávamos indo para o bar. No meu bolso um celular que estou pagando em diversas parcelas. No bolso da Kelli o celular que ela comprou faz pouco tempo. E no bolso do morador o que tem? Eu respiro, e ele caminha na minha direção. Ele está acompanhado por um rapaz que se mantém distante. Nas costas do rapaz que segura a marmita muita gente dormindo pelas beiradas, eu terei que passar por todos eles. Mas a questão é, o que eu tenho na mente por decidir andar nessa hora no centro? O que minha namorada tem na mente por confiar em mim? O que o morador tem na mente por vir em minha direção? O que seu amigo tem na mente por se manter afastado? Ele está se aproximando, e fala um tanto quanto tímido um boa noite senhor, e eu retribuo com um tom de voz firme um boa noite meu velho. Ele segue se aproximando.

Esse silêncio nos intervalos das inteirações é o que deixa tudo ainda mais sombrio. Eu me questiono, se ele tiver um canivete? Se ele levantar voz de assalto? Eu reajo pra defender meus pertences e os de minha namorada? Eu os entrego e tento garantir a nossa vida mantendo a serenidade?


Tudo isso está acontecendo logo nesse momento em que eu me encontro lendo um livro do Ferrez (em breve publicarei uma resenha sobre o trabalho dele aqui), e embalado por essa literatura eu começo a me questionar, por que diabos esses pertences me pertencem? Por que eu devo ter eles e esse morador não pode me tomar? Porque eu comprei? Ah, então divaguemos sobre o assunto: Eu nasci em uma família de pais separados, ganhadores de salários mínimo (meu pai em alguns momentos da vida um pouco mais, mas não mais que cinco vezes isso), morei boa parte da minha vida em bairros periféricos. Mas minha mãe sempre me ensinou que o que é dos outros eu não posso por a mão. Meu pai sempre me disse que se tem algo que o homem tem na sua vida, é o caráter e esse é representado por suas atitudes. Meu pai sempre me cobrou muito os estudos. Mais da metade da minha vida morei em um condomínio onde todos meus amigos tinham pais que mantinham a mesma rigidez dos meus. Meu condomínio era como um portal, onde se vivia uma comunidade à parte da nossas redondezas. Ali não entrava droga (pelo menos não vinha ao meu encontro), só entrava um monte de meninos bundões que brincavam de bang bang com pedaços de madeira. Devido a essa estrutura eu sempre estive na escola, tive um encaminhamento religioso (não que isso seja lá garantia de alguma coisa), valores me foram passados e ficaram na minha mente. Graças a tudo isso sempre trabalhei, desde os 14 anos de idade ganho meu próprio dinheiro. Meus primeiros empregos geralmente foram indicados por meus pais, ou parentes que se responsabilizavam por minhas atitudes. Hoje tenho um salário razoável, uma casa que me permite entrar no silêncio do meu eu para me entender melhor, um lar que me dá conforto e alimentação para poder me concentrar nos meus estudos, planejar o meu futuro e escrever esse texto. É a soma de tudo isso, o meu passado e o meu presente que me possibilita comprar as coisas, mesmo que ainda precise dividir em quatro vidas sem juros. Então é por isso que eu tenho todo o direito de ter esse celular no bolso. Mas e o morador, por que ele não teria?

Peço perdão em primeira mão pra vocês, não quero julgar e muito menos tentar adivinhar o passado desse homem com a marmita na mão, preciso já deixar claro que sei que existem muitos doutores que resolvem abandonar a vida cômoda dentro desse sistema de merda em que vivemos para viver a liberdade, para viver a rua muitas vezes. Mas me permitam criar um possível cenário da vida desse rapaz que hoje dorme embaixo das marquises.


Começo a pensar que se ele ao contrário de mim não teve pais que lhe deram educação. Se ele ao contrário de mim não teve acesso à escola. Se seus pais, ao contrário dos meus não tinham amigos donos de comércio. Se esse rapaz passou fome desde que nasceu. Se ele foi apresentado ao terrível mundo das drogas antes de aprender o conceito que nossa sociedade segue de certo ou errado. Eu então paro para pensar que talvez a injustiça esteja em eu ter um celular desses como patrimônio e ele ter uma marmita fria e um cobertor sujo. Eu mereço não dormir nas ruas por que? Porque eu trabalho? Mas se eu só trabalho por ter estudado, e só estudei por ter tido bons exemplos em casa, tutores rígidos, logo eu não mereço dormir na rua por ter tido oportunidade. A injustiça  e a falta de meritocracia mora onde nesse caso?

A minha mente continua a mil, os pensamentos estão um atrás do outro, prossigo pensando que se ele tiver no bolso um canivete e vier para me matar e apenas um de nós tivermos que sobreviver, a justiça estaria em eu morrer e ele seguir, em alguém o pegar no colo, o ensinar o quanto o estudo é bom. Se alguém tiver que morrer, o certo será eu, que já me deleitei no doce sabor do amor, que tive carinho desde que nasci. Eu já aproveitei o melhor dessa terra, que é a família, que é a paz. Eu já tive a chance de me encontrar comigo, então se alguém tiver que morrer hoje, aqui no centro gelado de Curitiba, que seja eu, não esse rapaz, que pode nunca ter tido carinho, que pode nunca ter ouvido um eu te amo, que pode nunca ter tido sequer a esperança de um dia dormir sentindo-se em paz. Meu Deus, como eu sou cruel, desfilar com um celular tão caro dentro da casa desse senhor, no seu horário de vigília – se ele dormir durante a madrugada pode ser vítima de barbáries – e pensar que ele não pode encostar em mim. Hoje eu morrerei aqui, mandarei minha namorada correr, e meu sangue virará uma prova de martírio, contra o Estado incompetente, contra os milionários que são miseráveis de espírito, uma prova de amor pela humanidade. Só espero que minha namorada corra e consiga escapar das mãos desse senhor que está tentando ter algo que outro ser humano igual a ele pôde ter por ter tido as ferramentas certas para tal. Cada um luta com as armas que tem nas mãos e hoje eu morrerei aqui, em plena XV. O rapaz se aproxima ainda mais de mim, e finalmente cumpre aquilo que pensou em fazer quando veio em minha direção:

– O senhor por favor, poderia me dar um golinho do seu refrigerante?


Foto | http://www.portalnoroestesp.com.br/moradores-de-rua-sofrem-no-frio/

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