Eu não vou pedir desculpas por ser feliz

Aquela conversa estava atrasada mais ou menos uns quatro anos. Mas ainda que parecesse comida que chega fria na mesa do restaurante, ela tinha um sabor honesto de quem ficou anos cozinhando aquelas verdades e esperou ansiosamente para servi-las com doses extras de temperos que foram acrescentados com o passar dos longos meses. Ao menos eu sabia com todas as letras que meu amor já havia evaporado há um bom tempo. Do lado de lá, não podia dizer.

Mesmo assim, já na segunda caneca de chopp, falávamos animosidades sobre a vida e os amigos com quem não falamos mais e sobre outros que mantivemos na caminhada. Fulano teve um filho? Que bom. Fiz a especialização com a beltrana, somos amigas ainda. Você merecia mesmo aquela promoção no trabalho, lutou por isso. Não teria passado muito disso se não fosse o cantor puxar do fundo da alma um bom e velho Legião que soava como uma oração “E eu dizia ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo…”  Pensei nas contas de um rosário onde eu rezava: Cedo, cedo, cedo… Então, ele me olhou nos olhos depois de uma respirada funda e soltou a crucial pergunta como quem chega dentro de casa depois de carregar durante horas uma mala pesada: Você cansou de mim, por isso quis ir embora? Eu fiquei calada por um instante tentando organizar a pergunta, a música e o ambiente, será que era só a segunda caneca mesmo? Voltei a respirar quando notei que não o fazia há alguns segundos. Eu cansei de mim, entende? Quando a gente cansa de ser a mesma coisa todos os dias e precisa ser alguém que parece que dormiu dentro de nós e se demorar muito morre? E por mais que eu tentasse explicar além disso, eu sei, parecia mais vago ainda.

Mas verdade é que algumas histórias- por mais incríveis que sejam- acabam por nos anular de uma maneira que pode ser crucial na hora de desenhar o nosso futuro e como todas as coisas da vida, só pode ser resolvidas com escolhas importantes. Boas ou más, sempre escolhas. E eu nunca fui o tipo de pessoa que consegue viver sufocada pela sombra das vidas que eu não terei por falta de tentativa. Eu preciso ao menos ter tentado o primeiro passo, isso é uma ansiedade de alma- se é que posso chamar assim- que eu não consigo deixar de lado. Os bons empregos, relações potencialmente boas, uma vida mais rotineira, nada disso me prendeu na hora de fugir. Quando me olhei mais de duas vezes no espelho e não vi alteração alguma, simplesmente fiz as malas dessas situações e me lancei ao novo, eu me lanço ao que me motiva o tempo todo e quando não sai como o planejado assumo: Mea maxima culpa.

Mas ele precisava que eu dissesse ao vivo e sem filtros que saí daquela relação porque a felicidade que beira a perfeição me dá medo e porque, de maneira alguma, eu queria ser a pessoa que eu saberia que acabaria me tornando ao lado dele. A mulher de hoje- que vos escreve sentimentos e revoltas, traumas e acidez sem custo, que tem uma vida mista de vitórias e tropeços, segredos e orgulhos expostos- não existiria se tivesse deixado a boa e maravilhosa cama confortável da conformidade me engolir. As pessoas que conheci, os lugares que visitei e os amores que vieram depois da minha decisão de não viver uma relação “bacana”, fizeram de mim quem eu sou. E depois de explicar tudo isso com o calor no peito emanando felicidade, eu desabei no chão a minha mala pesada: Desculpe, mas não consigo de modo algum me arrepender de nada disso. Eu não irei me arrepender de ter sido feliz. Claro, foi difícil em vários momentos e a vida tem essa coisa de volta e meia fazer a gente olhar para trás e questionar se vale doer e sangrar diversas vezes por tudo isso. Mas ainda assim, não consigo me arrepender nenhum segundo da vida que vivi com ele e, principalmente, depois dele.

Depois de tentar durante anos me perdoar por tê-lo magoado na época e por precisar dizer verdades tão finas e cirúrgicas assim, no seco, anos depois, entendi que mesmo parecendo contraditório todas as vidas que se cruzam têm seu tempo de validade, contudo, não é o tempo que define a importância delas. Relações, de todos os tipos, deixam marcas eternas em nós. Sair delas também é um ato de amor, consigo e com o outro. Arcar com a consequências dessas escolhas todas, independente dos resultados, é um gesto de amor próprio e maturidade. Por fim, tive que assumir que vivi uma longa busca para me sentir perdoada por ele também. Pedi desculpas sinceras por não ser nem de longe aquilo que merecia o bom rapaz, digno de todas as coisas boas que a vida honesta, pura e utópica, pode lhe oferecer. Ele, sempre maduro, me disse com ares de nobreza e dor: Tudo bem, qualquer um sabe que você não nasceu para certas coisas. É que a gente arrisca, você é um risco que a gente não tem medo de assumir. 

E receber esse elogio foi o que me deixou em paz.

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