Márcio Rodrigues é uma pessoa comum, com um travesseiro para 40 mil pessoas

Escritor, músico, publicitário, apaixonado pela vida e um cara extremamente comum. Márcio Rodrigues é paulistano, tem 29 anos. Apesar de escrever rotineiramente não se considera um grande escritor. Apesar de fluir em suas linhas com palavras perfeitamente encaixadas, não se classifica como um grande leitor. Se suas inspirações não vem dos livros de onde elas vem? Das ruas, das vielas, dos metrôs, das conversas, dos comuns, pessoas comuns, como eu, você e principalmente o próprio. A sua página “Um Travesseiro Para Dois” já está com quase 40 mil curtidas no Facebook, seu blog já ultrapassou 3 milhões de acessos. Já tem um livro lançado, e está se movimentando para o segundo. Esse fenômeno que é o Márcio Rodrigues é uma pessoa simples, de uma humildade singela e de um coração que não cabe no peito. Conheça um pouco mais a fundo a pessoa de Márcio Rodrigues.


Erick Reis – Márcio, vamos começar pelo início de tudo. Como foi sua infância?

Márcio Rodrigues – Entre vergonha de cumprimentar garotas por conta das minhas espinhas e boas notas na escola, minha infância foi feliz. Sempre gostei de escrever. Na adolescência, influenciado pela ideologia Straight Edge, me tornei vegetariano. Canhoto, até os 15 eu queria ser o Ronaldinho e me dedicava em escolinhas de futebol. Troquei esse sonho por aprender a tocar violão e pela necessidade de trabalhar para ajudar minha família. Meu primeiro emprego foi numa fábrica na minha rua. Fiquei 2 semanas. Sou filho único, de pais separados, moro com a minha mãe e a minha tia – e esta composição familiar, inclusive, me influenciou a escrever sobre o amor que pode unir as pessoas, pois tive o exemplo em casa de como a falta de amor faz mal não só para o casal, mas para a família. Aos 16, finalmente, depois de sofrer por amores não correspondidos, dei meu primeiro beijo e já pedi a garota em namoro – sou ansiedade com ascendência em expectativa. Ela era a garota da minha vida até terminar e eu conhecer a próxima garota da minha vida.

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E – O seu primeiro emprego durou duas semanas, seus namoros foram sempre banhados de ansiedade com tempo de validade. Para Platão nós amamos tudo aquilo que desejamos, e desejamos o que não temos. Você consegue notar isso nas pessoas ao seu entorno? E em outras situações, a teoria do amor platônico se aplica na sua vida também?

M – Penso que amamos o que sonhamos ter e isso pode ser algo ou alguém. Amamos a resposta que nem recebemos e amamos tanto que nem pensamos que ela pode ser ruim, isto é, “por favor, não me deixe falando sozinho, eu vou gostar de receber uma mensagem sua”. Acho que existe amor platônico na nossa vida inteira, ora por alguém, ora por uma viagem que queremos fazer, por exemplo. Não temos, mas queremos tanto. O que compromete isso é o pessimismo e a neutralidade sentimental, pois eu acredito que é preciso se assumir, é preciso assumir ser fraco – estar num dia ruim, é preciso assumir que “te quero de volta”. Quando a gente rompe essas barreiras, o platônico é atenuado e se transforma em possível. Então nos exemplos que citei no começo: quando você fala pra alguém que você gosta desse alguém, as chances de dar certo são maiores que guardar pra si; quando você economiza pra viajar, as chances são maiores que só querer. É preciso sair da inércia sentimental de só querer.

E – Você disse que “é preciso assumir ser fraco”, mas você diante da vida se sente fraco ou forte? Seria a escrita a sua fortaleza de revitalização? A arte te torna forte, ou ela apenas demonstra a sua fraqueza?

M – Eu me sinto real. Assumir ser, eventualmente, fraco é assumir ser real. É deixar a casa cair para que possa reconstruir. Minha escrita é real, de dias bons e ruins, de choque de realidade, recheada de “uau que alegria incrível” e “que saco passar por isso. A arte, enquanto escrita ou música, principalmente escrita, me lembra de que não sou perfeito. É um refúgio para eu ser quem sou, falar do que quero. Falar de coisas que não vivo e de coisas que vivo demais, sobretudo, me ajuda a entender que tudo bem eu ter fraqueza, pois nenhuma fortaleza nasce pronta.

E – Quais foram suas primeiras paixões na escrita?

M – Eu sou um péssimo leitor. Pés-si-mo. Talvez por eu me dedicar tanto a escrever e faltar tempo, talvez por eu não ter vergonha na cara mesmo, mas eu sempre li as colunas do Veríssimo e livros do Marcelo Rubens Paiva. São escritas que gosto. Tem algo além também: de certa forma, na minha cabeça, eu não leio outros autores do meu segmento para eu não me influenciar e manter um estilo próprio. Ainda reforço que é um comportamento errado, pois ler é fundamental, mas estou em mudança desse hábito. Se eu não me tornar um bom leitor, que eu seja um leitor menos pior então.

E – Você considera a sua leitura ainda fraca, o que mais você acredita que precisa melhorar em você?

M – Muita coisa, quase tudo. Acreditar que não tenho no que melhorar seria tolice. E me excito com a possibilidade de melhorar sempre, mesmo no que acredito desempenhar um bom papel. Confio no “se melhorar, melhora”. Mas, hoje, eu gostaria de organizar melhor meu tempo. Tenho muito a fazer e deslizo em prioridades, aí acabo entrando no ritmo de “depois eu faço” – e não faço. Daí o fim de semana chega e vai embora, o mês chega e vai embora, o ano chega e vai embora e eu não evoluí. Então, o que eu precisaria mudar principalmente em mim hoje e que me ajudaria na vida um modo geral seria: organizar meu tempo.

E – Você se apresenta como um ser falho. Você acha que se mostrar comum te aproxima do seu leitor?

M – Eu acho, sim. Gosto da proximidade que tenho com quem lê meus textos. Não quero que idealizem alguém que não existe e criar uma imagem de “nossa, como eu queria um homem assim”. Por isso meus temas são variados, para que concordem ou discordem de mim, mas que sobretudo criem a própria opinião.

E – Como você começou a escrever?

M – Comecei a escrever no Fotolog, há 15 anos ou mais. Mas tudo mudou mesmo quando ganhei um concurso de redação no clube em que eu era sócio – na mesma época. Era um Concurso de Redação, divido por faixas de idade. O tema era livre. Eu não lembro direito sobre o que escrevi – o que é uma pena – mas eu acho que era sobre a minha adolescência e os meus amores. Sabe, minha família não tem aquela composição-tradicional-almoço-com-a-vó, meus pais se separam quando eu estava na puberdade e tudo ficou confuso. Tinha acabado de entender que eu era filho único e aí tive que lidar com o fato de não ter pai em casa. Retomando (risos), quando eu ganhei o prêmio eu mal entendi. Eu era tão novo que fiquei feliz com a medalha mas não imaginaria onde me levaria hoje.

E – Como foi lançar o primeiro livro?

M – Lançar o primeiro livro foi um sonho que eu nunca tive. Este sonho foi plantado em mim pelas pessoas que me leem a mais tempo e floresceu com uma alegria que eu nunca tive antes. É bom sentir coisas que nunca sentimos antes, principalmente coisas boas. Então, as pessoas que me leem que são as responsáveis pelo meu primeiro livro. Agora gostei e já estou escrevendo outro.

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E – Vida de escritor no Brasil, como é?

M – Como eu não me considero escritor como os outros gigantes por aí, não sei dizer com propriedade como é essa vida, pois eu trabalho muito formalmente ainda. Mas pela experiência do meu livro posso dizer que é bem complicado. Se você quer dinheiro, pense duas vezes. E este é meu trunfo: nunca pensei em ganhar dinheiro, em ser “famoso de internet” ou coisa do tipo, eu só escrevo uns textos sobre umas coisas que a gente vive mas que olhando de dentro não fazem sentido. Aí eu escrevo. E aí as pessoas leem, pensam um pouco, refletem nas atitudes e tomam suas próprias decisões. E vamos juntos nisso.

E – Nesses anos de versos, textos e crônicas  acredito que você teve alguns retornos dos leitores. Qual mais te marcou?

M – Realmente são muitos relatos incríveis. Recentemente um homem disse que conheceu a namorada dele pelos comentários do blog. Só tem um detalhe: ela mora em Tocantins e ele em Piracicaba – interior de SP -, se não me engano. E daí? Foi amor. Pena que acabou, mas enquanto existiu foi incrível – e saber disso me deixa sem palavras. Mas, tenho uma história especial: uma leitora que sofria de câncer me mandou um e-mail falando que meus textos a ajudavam a superar. Li e chorei. A gente não tem ideia da nossa influência, né? Eu tenho a ferramenta do blog que chega em mais pessoas, mas todo mundo tem voz, isto é, todo mundo pode influenciar quem quiser e puder conversar. Ela me ensinou mais da vida que qualquer livro da escola.

E –  Muitas pessoas pensam em montar um blog, escrever crônicas. Mas o que as prende? Seria o medo do que os outros vão pensar? Seria a falta de confiança em si mesmas?

M – Acho que existe esse receio mesmo, receio de se expor e, principalmente, de “não gostarem” dos textos. Uma oficial vergonha que eu acho bobagem. Me pergunto: será que o Veríssimo que citei lá em cima termina os textos e pensa: “uau, eu sou um gênio!”? Acho que ele só escreve. Acho que tem a ver com a falta de confiança também. As pessoas só precisam ter menos medo de mostrar quem são.

E – Clarice Lispector sempre disse que escrevia por necessidade. O mesmo acontece com você? Se escrever desse pena de morte, você escreveria mesmo assim?

M – Acho que acontece o mesmo que eu sim. Eu amo escrever e nunca me importa se teria alguém pra ler. Acho que esse é o segredo: nunca escrevi para agradar, escrevi e escrevo para me realizar. O que mudou é que pessoas começarem a ler a se identificar. Não tenha dúvidas que eu escreveria mesmo se houvesse pena de morte. Até porque é algo incontrolável, por vezes mais forte que eu. Ainda que matassem meu corpo, teria uma alma viva andando pelas entrelinhas das pessoas que já leram.

E – Se você pudesse mudar uma só coisa em todo o mundo, o que mudaria?

M – Se eu pudesse mudar uma só coisa no mundo, bem, será que daria para mudar algo? Eu queria que as pessoas tomassem injeção de otimismo. Uma pessoa otimista é invencível, automaticamente o pessimismo seria anulado. Eu acredito tanto na energia que a gente emana e que ela pode resolver a grande maioria dos nossos problemas, então, talvez, eu mudaria o jeito que a gente fica triste, que a gente lembrasse de ser sempre otimista. Imagina como seria o mundo se TODOS NÓS fôssemos mais otimistas?

E – Se essa fosse sua última oportunidade de deixar um recado para seus leitores, o que diria?

M – Eu diria para os meus leitores que, cada quem já me leu, pode dormir com a certeza de que fez alguém muito feliz. E que este alguém sou eu; feliz com cada comentário e cada soma de energia. Diria obrigado por falarem comigo, por trocarem toda essa força e diria para se colocarem mais no lugar dos outros, acreditar que este tal de amor é real e mora dentro da gente e, por fim, diria que o melhor está por vir.


Márcio Rodrigues é um dos convidados do próximo Regra Soma. A sexta edição do evento acontecerá em São Paulo no próximo dia 10, às 16h no Diminuta Bar. O evento é gratuito. Confira mais detalhes aqui. Confirme sua presença.


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