O escafandro e a borboleta

França, 1996.

No silêncio do quarto 119, Jean-Dominique Bauby emerge do coma. Cerca de dois meses antes, o então redator-chefe da revista Elle sofrera um acidente vascular cerebral, comprometendo todas suas funções motoras. Incapaz de movimentar-se, comer, falar e até mesmo respirar sem a ajuda de aparelhos, fora atingido por aquilo que a medicina chama de “locked-in syndrome”, literalmente, trancado no interior de si mesmo.

Com exceção do olho esquerdo, seu corpo fora fadado à inércia. Dadas as circunstâncias, não havia tempo a perder em sua nova morada, o Hospital de Berck. Aprendeu a se comunicar através de piscadas e, assim, decidiu escrever um livro. Cartões-postais de uma terra distante.

Permito-me ser tomada “pelo acesso de riso nervoso que o acúmulo de catástrofes sempre acaba por provocar quando decidimos tratar o último golpe do destino como piada”. Ainda que sob circunstâncias distintas, também estou presa em meu corpo. Assim como Jean-Dominique, faço das palavras minha morada, transcrevendo-as em cadernos de viagem imóvel. Infelizmente, elas não tangem a importância que suas piscadas têm em minha vida.

Para Jean-Dominique Bauby, onde quer que esteja: Obrigada por me lembrar que mesmo dentro do escafandro, eu ainda sou uma bela borboleta.

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