A geração coca-cola, hoje toma Rivotril

Começou cedo, eu estava longe de casa, abri os olhos e me senti sufocada sem nem mesmo estar totalmente acordada. Coloquei a culpa na cama do alojamento onde eu estava à trabalho, já que nada dali tinha o meu cheiro ou o cheiro de algo que eu conhecesse. Odiei a ideia de aceitar dormir naquele lugar frio, sozinho e silencioso. Quando sinto que as minhas ansiedades estão aflorando, me concentro nos pontos de paz e naquele dia enviei uma mensagem para alguém que me estrutura em meio aos meus medos que surgem famintos. Mas a vida não escolhe te dar folga se você tem uma crise de ansiedade num dia de trabalho extra, tudo o que ela te oferece é um comprimidinho alaranjado que tem gosto de sossego, que na verdade me deprime, mas me segura até poder ficar sozinha e ligar para alguém que me faça respirar em paz e lembrar quem eu sou de verdade. E essa é uma parte de um dia “meio ruim” de alguém que sofre com ansiedade.

Meu diagnóstico chegou aos 18 anos, recém órfã de pai, recém iniciando a faculdade, recém dando orgulho para a família, ganhando grandes prêmios já de começo de carreira, comprando um carro, quase me casando, conseguindo quase tudo o que eu queria. E infeliz. Ansiosa demais pra desfrutar tudo isso. Me tratei durante anos com terapia, felizmente sem necessitar de medicações fortes, e melhorei consideravelmente até conseguir meu novo emprego que me obrigou mudar de cidade. Estava em São Paulo, morando sozinha, pagando minhas contas, encaminhando meu livro e planejando novas aquisições, quando numa noite acordei sozinha sem conseguir respirar. Água, respira, comprimido, respira, está tudo bem, respira, você não vai enlouquecer agora, respira. Respira. Choro. Respira. A madrugada foi me engolindo e quando melhorei razoavelmente já estava na hora de sair para trabalhar, minhas olheiras custaram um bom tempo de maquiagem. Veio como um tiro no meio da história que tinha tudo para dar certo, procurei ajuda profissional e hoje- meses depois- vivo novamente me segurando dentro dos escudos emocionais para conseguir dar conta desse coração acelerado.

A questão de tudo isso é que eu não sou a única perdida nessas crises noturnas, nesses cuidados emocionais para não sair correndo da fila do metrô ou sentar na sessão de congelados e chorar até secar no meio de um mercado lotado. A maioria dos meus amigos tomam algum tipo de calmante, floral ou usam algum tipo de química que lhes sirva de fuga anti-stress e tratam ansiedades. Alguns encontraram nos esportes, na fé, na religião, na comida, no álcool, no cigarro e afins, a superação de seus traumas que envolvem pais ausentes, sucessos meteóricos e assustadores, a superação dessas relações que são uma mistura de não-relações ou jogos de amor profundos que nos destroem e que virou moda nos últimos 20 anos. A nossa geração teve que decidir em meses entre medicina ou artes cênicas ou viver de renda paternal e tem como meta do final de mês ser feliz e provar isso nas redes sociais. A gente é obrigado a conseguir tudo antes dos 25, porque somos a geração da comunicação, somos os “google’s’ humanos e respirar, parar e pensar, é coisa de gente desocupada. Saímos de nossas casas amadas e quentinhas porque o salário já não paga mais as roupas de marca e o carrinho econômico já não combina mais com a garagem do papai. Conhecemos 6 mil pessoas online, mas não temos quem colocar na ficha do médico um nome realmente confiável no item “Em caso de emergência, ligar para:” Não casamos aos 19 porque é coisa do passado e não casamos depois dos 30 porque agora já não dá mais. Filhos, só um, tá vivendo no século XIX pra ter quatro? Paris, você precisa conhecer o Louvre ou não será digno de respeito, vai contar o quê para os filhos? Mochilar sem dinheiro por prazer? Coisa de drogado, alternativo e hippie.

Então saímos por aí dentro de nossas camisas sociais, alinhados com nossos sapatos lustrados que machucam o calcanhar, afogando dentro de um vestido colado para garantir a sensualidade, mas equilibrando para não ser vulgar e tentando ao máximo corresponder expectativas alheias que nunca se definem e são sempre extremas. Ordens que nos atropelam. Boletos que nos afogam. Padrões que nos desumanizam. Se não correspondermos esse ideal de vida que nos cobram como se fosse obrigatório evoluir na mesma velocidade que a Apple lança um celular, somos atrasados, coitados, lerdos e com poucos números na conta bancária. Falidos. Lembrei quando uma garrafa de vinho barato, comprada no posto de gasolina, me fazia feliz apenas por estar em família. Hoje em dia trabalho pesado para bancar meu Cabernet, uma única taça, olhando a sacada de um apartamento na metrópole cheia de ansiosos solitários como eu. Lembrei quando o cachorro quente na calçada ao lado das minhas melhores amigas enquanto o mundo ainda era um ideal abstrato, era o banquete dos sonhos e eu não trocaria por nada e por ninguém. Hoje em dia os restaurantes têm decorações com nomes importantes, mas eu não conheço de verdade ninguém que divide a mesa comigo. Nessa busca de sofisticar as felicidades simples, a geração coca-cola agora só consegue descansar quando tem uma caixa de Rivotril.

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