Arte-se e Fotoverbe-se com Andressa Barichello

Apresento-lhes uma mulher de 28 anos, paulista. Filha do seu Dárcio e da dona Mariza. Andressa Barichello é Graduada em Direito pelo Unicuritiba, Especialista em Sociologia Política pela UFPR e Mestre em Filosofia e Teoria do Estado com ênfase em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa. Uma mulher com um pensamento de mundo muito bem formado, com uma cultura enraizada naquilo que há de mais belo – amar e doar-se. Andressa doa-se aos seus estudos, doa-se aos seus projetos, doa-se a arte. Co-criadora do site fotoverbe-se.com e agora lançando o site arte-se.com, Andressa sai da sua área de formação para somar com os artistas.  Conversar com a senhorita Barichello é como devorar um livro poético, a cada palavra uma inspiração, a cada frase uma nova reflexão. Está na hora de nos conectarmos com a arte!


Erick Reis – Andressa, você já migrou por diversas áreas de estudo, mas nenhuma das suas graduações é em específico sobre artes plásticas, o que lhe encaminhou a empreender nesse ramo?

Andressa Barichello – Os encontros da série Rosto & Gosto para o projeto Fotoverbe-se trouxeram o privilégio de me aproximar do universo das artes plásticas e da fotografia. O contato com artistas e mesmo com pessoas que possuem um hobby capaz de incluir sua subjetividade em algum espaço da rotina trouxe mais clareza a respeito do quanto é importante buscar caminhos para a expressão individual e aproximar o coletivo dessas expressões. Com o trabalho no Fotoverbe-se descobri que a arte é um bem do qual todos podemos fruir, embora ainda seja muito comum o equívoco de a associarmos ao distante e inacessível, seja porque atualmente o modo de vida mais pragmático e o ritmo acelerado nos façam demais apegados às coisas tangíveis e demasiadamente concretas, seja porque ainda há um distanciamento real entre a produção artística das pessoas e os lugares de frequentação cotidiana. Será que as pessoas fazem ideia de quantos artistas a cidade delas abriga? Se os intervalos de “respiro” que temos são raros e curtos, parece-me que é preciso buscar alternativas que tornem mais curto o caminho entre o belo e o dia a dia das pessoas. A partir daí é que surgiu o arte-se, como galeria virtual que contempla perfis de artistas os quais podem ser acessados em qualquer hora e em qualquer lugar (para que todos possam ler sobre eles e ver algumas de suas obras) e também como espécie de “cupido” entre espaços que desejem ceder seu ambiente ou suas paredes para eventos culturais – acho que uma iniciativa para ser completa atualmente precisa existir no mundo virtual, mas também se preocupar em promover encontros reais e a ocupação da cidade de um jeito capaz de resgatar alguma delicadeza.

E – Do direito para a fotografia também encontramos uma grande distância. Quando foi que você se sentiu atraída para a fotografia? Me fala um pouco desse momento da sua vida.

A – Admiro muito os fotógrafos e sua capacidade de lançar um olhar capaz de enriquecer e transformar os lugares, os objetos e as pessoas. Acho que a fotografia tem algo de captura, mas de algum modo é também uma arte de reescrita pois a lente do fotógrafo é interventiva e é algo só dele. Acho que quando eu e o Paulo (que é meu parceiro no Fotoverbe-se e o responsável por todas as fotos do projeto) percebemos que as áreas nas quais gostávamos de nos expressar (eu na escrita e ele na fotografia) poderiam ser áreas que, mais do que dialogar poderiam até mesmo subverter um pouco os limites entre imagem e palavra é que o Fotoverbe-se foi ganhando corpo. Acho que é por isso que uma das indagações que colocamos na apresentação desse projeto desde o início foi: “Como fazer retratos utilizando palavras e escrever poesia por meio de uma lente, um olhar?”. Na verdade, a nossa história pessoal se mistura um pouco com o início do Fotoverbe-se pois quando nos conhecemos (antes, portanto, de sermos namorados e parceiros no projeto) aconteceu de trocarmos fotos e textos (ele me enviar uma foto para que eu escrevesse algo a partir dela). Essa primeira experiência, uma brincadeira, acho que foi um “click” muito significativo e me chama atenção o fato de que muitas vezes as coisas mais sinceras e interessantes que podemos produzir são essas um dia mediadas pela força de um acaso, por uma despretensiosidade e também pelo afeto. Embora o arte-se seja um projeto novo e à parte, que empreendo com meu irmão Luigi, sinto que ele é um desdobramento do amadurecimento das experiências acumuladas no Fotoverbe-se.

é a luz,
somente ela a fazer dos anjos
luz
a ver de nós sombra e cruz
– Andressa Barichello

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(Foto | Paulo Andrade)

E – Você tem uma paixão declarada pela arte, pelo fazer arte ao ponto de respira-la, isso está bem nítido. Como a arte se apresentou na sua infância? Quais foram suas primeiras paixões artísticas? Seja no cinema, fotografia, plásticas, literatura, música ou demais manifestações?

A – Acho que ao pensar em infância temos de considerar as influências mais sutis e mesmo inconscientes. Nesse aspecto, impossível não pensar no meu pai. Ele era daqueles que arrastava os móveis para inventar uma dança depois de chegar do trabalho. Eu devia ter uns quatro anos mas recordo bem da minha imagem em cima de uma cadeira aos pulos com as músicas da Rosana e do Beto Barbosa (risos)! Quando contava histórias meu pai costumava sonorizar os bichos, carros, etc e isso, de algum modo, certamente teve uma importância muito grande para mim. Embora depois dos trinta anos ele tenha seguido carreira na área de vendas e marketing, durante as décadas de 60 e 70, ainda no período da ditadura militar, ele foi ator em diversas peças e filmes nacionais e chegou mesmo a ser dono de teatro em São Paulo. Na minha adolescência ele resgatou de algum modo isso, passando a apresentar programas na televisão. Pensando mais especificamente sobre as experiências da minha infância, a atração pelas palavras se manifestou com meu grande interesse em aprender a escrever, com o gosto que eu tinha pelas cantigas e a facilidade em fantasiar histórias. Acho que o fato de meus pais terem se mudado para Curitiba quando eu ainda era muito pequena e de meu irmão ser quase dez anos mais velho foram coincidências que favoreceram para que eu fosse uma criança mais “ensimesmada”.

E – A solidão foi sua companheira na adolescência? Como foi essa sua fase de vida?

A – De certo modo sim pois não me sentia muito adaptada ao tempo dos amigos para algumas atividades e acho que nessa fase todos nos sentimos um tanto perdidos sobre quais são as coisas que de fato valorizamos. As mudanças no corpo tendem a gerar uma preocupação demasiada com a aparência e o apelo por pertencimento talvez seja um pouco maior do que em outras fases da vida. Isso pode fazer com que o adolescente se afaste ou renuncie um tanto a coisas importantes, ao menos por um período. Acho que comigo não foi diferente.

E – Eu acredito que cedo ou tarde todos receberão a solidão, e nesse momento o indivíduo precisa estar preparado para lidar consigo mesmo. E é exatamente por não olharmos para dentro que muitas vezes nos encontramos perdidos e desesperados com essa sensação de não pertencimento. Você concorda com esse ponto de vista? Como você avalia a relação das pessoas o “eu”.

A – Concordo sim. Muitas pessoas, inclusive, se deixam levar por uma vida muito agitada e muito voltada ao consumo, porque velocidade e objetos de perecimento rápido (que exigem uma rápida substituição) são dois “ingredientes” capazes de produzir uma evitação quanto ao encontro desse momento no qual, diante de algum vazio, é preciso criar, com os próprios recursos, algum sentido bastante. O papel da arte vem ao encontro desse lugar, suponho. A arte é um modo bacana de fazer alguma coisa com aquilo que o “eu” nos apresenta, por mais feio e assustador que possa ser. A arte, além de um excelente “anteparo” para os nossos tempos, pode ser também um “amparo” porque nos reconduz pela criação ou contemplação, a sentimentos e questionamentos que embora possam ser universais, se situam para cada um, no íntimo, fora da multidão. Ao mesmo tempo é curioso pensarmos que o encontro com a solidão talvez seja o único modo de termos uma experiência menos sofrida com ela, afinal, quando nos entregamos totalmente ao “pertencimento” estamos sujeitos a viver histórias que não nos fazem muito sentido.

E – Você falou sobre o consumismo, e o que te trouxe até aqui foi exatamente seu negócio, seu empreendimento. Nele os artistas vendem sua arte, e essa não tem vencimento, validade, não fica ultrapassada. Você acredita que o consumo da arte leva as pessoas a uma reflexão interior? De que maneira a arte molda o nosso intelecto? Nos tira do consumismo?

A – Em primeiro lugar a arte não é um bem de consumo, mas de fruição. Por isso precisa estar de algum modo disponível ao acesso do público. Para facilitar a acessibilidade ao coletivo, acho que é preciso existir maior conscientização das pessoas. Porque é preciso que aqueles que podem invistam no trabalho dos artistas, sem diminuir seu valor e importância. As pessoas que desenvolvem trabalhos na música, na escrita e também nas artes visuais são muitas vezes desrespeitadas. Sabe aquela coisa do “toca no meu bar para divulgar a sua banda?”. Acho que essa história caricata é um drama vivido, de outros modos, por outros setores da produção cultural. Mas sou otimista e acho que essa mentalidade está mudando. As pessoas com quem converso, em sua grande maioria tem muito claro o entendimento de que o reconhecimento que chega pela via da aquisição de obras é também muito importante para o artista, porque é o que tantas vezes permite que continue a produzir. Há coisas que compramos para consumir, mas as artes, assim como as viagens, acredito que são investimentos. E acho que se nos perguntássemos com mais frequência se as coisas que desejamos comprar são necessárias, supérfluas, são consumíveis ou um investimento, teríamos chance de rever nossa relação com o dinheiro e estarmos cada vez mais atento a durabilidade, a cadeia produtiva e aos valores imateriais que estão ligados a tudo que compramos. Um agir consciente com relação a tudo que compramos impacta em sustentabilidade, em redução de mão de obra escrava, em qualidade de vida e no campo das artes, no respeito à criação e ao ofício do artista.

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(Foto | Paulo Andrade)

dos olhos pares milhares havia um sobre humano…
era um mas ousava dizer-se mais certeiro que
todos os olhos feitos da matéria de um olho verdadeiro
– Andressa Barichello

E – Se você pudesse mudar uma só coisa em todo o mundo, o que você mudaria?

A – Eu mudaria a forma que temos de aceitar viver tantas desigualdades. Quando vejo alguém dormindo debaixo de uma marquise fico pensando em quando terá sido, exatamente, que nos distanciamos desse modo do senso de comunidade. Sem querer pensar ou discutir história, política ou psicologia, na constatação apenas, na constatação simples de que, por algum motivo, não se sabe dizer qual e nem a partir de quando, foi possível que fôssemos estes que constatam a miséria, sentem uma pena quase filosófica dos que sofrem dela e seguem adiante.

E – De que maneira a arte pode romper essas distâncias sociais?

A – A arte é uma ferramenta de denúncia, e acho que isso a gente pode perceber com bastante clareza, por exemplo, na arte de rua. Se de um lado a arte nos apresenta questões, tem o poder de nos inquietar, de outro também facilita uma mudança efetiva. Porque a mudança efetiva na nossa relação com os outros e com o mundo antecede sua concretização no dia a dia da cidade e das ruas, isso de incluir o outro é uma coisa que vem antes, em a gente poder ter esse espaço simbólico do diferente aberto, rasgado mesmo, para que ele possa entrar e então termos efetivamente novos jeitos de ser um coletivo, de estarmos inclusos, de pertencermos de um jeito que não seja aquele em que alguns se anulam em prol de outros. Um estar mais consciente. Todo mundo adora citar o Guimarães Rosa e eu não sou diferente (risos), então gostaria de concluir essa resposta com um trecho que é dele, do Sertão Veredas:

“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, — se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente… “

E – E aos artistas que estão conhecendo o arte-se agora, qual seria seu recado?

A – Apresento o arte-se.com como um convite a abrir um espaço. A que os artistas marquem presença em palavras e imagens concretas a serem expostas ali, sim, mas esse convite também tem a ver com abrir um espaço simbólico. Porque fora a ideia de exposição e venda que a plataforma contempla, deixo aos artistas a ideia de pensar sobre empreender em arte de modo mais coletivo. O que me agrada no arte-se.com além da questão do conteúdo real é a possibilidade de o espaço, mais do que ser democrático, ser um lugar onde um artista empresta um pouco do seu talento ao outro. Porque o público de um vai ter acesso a obras do outro e essa pluralidade não ameaça ninguém, não diminui ninguém. Os artistas de trajetória mais longa dividirão espaços com a turma dos mais jovens e cada perfil tem algo de positivo contribuir com os demais. Porque, por exemplo, se para um artista jovem é bacana estar no mesmo espaço onde artistas de carreira bem consolidada tem um perfil, para esse artista que às vezes é de uma geração anterior, é muito importante ter seu nome conhecido por um novo público, quebrando um pouco distâncias, permitindo que os artistas mais jovens até mesmo se encorajem a buscá-los para orientações e trocas. Tem a ver com generosidade.


Gostou da entrevista? Não esqueça de visitar o site do arte-se.com. Curta a página do Regra dos Terços no Facebook, e espalhe essa entrevista por aí. Vamos juntos divulgando a boa arte pelos quatro cantos da web.

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