A arte de ler o prefácio

 Levei cinco anos para terminar de ler Dom Casmurro, clássico escrito por Machado de Assis, publicado em 1899 e considerado um dos livros mais fundamentais da literatura brasileira. Durante esse tempo tentei várias vezes fazer a leitura completa, visto a importância da obra, mas, por capricho, sempre desisti em qualquer capítulo.

 Meu primeiro contato com Dom Casmurro foi através de uma adaptação para a televisão intitulada Capitu, e só no ano seguinte fui apresentado ao livro nas aulas de literatura do ensino médio. Na história o protagonista e narrador, Bento Santiago, faz relatos desde sua mocidade até os dias em que está escrevendo o livro, passando pela sua vida no seminário e seu caso com Capitu, mas a trama principal da narração resulta do ciúme doentio em seu relacionamento.

 Nunca entendi muito bem porque ciúme, adultério e tragédia faziam aquela obra tão aclamada, até que certa vez, em mais uma de minhas tentativas de concluir a leitura, comecei pelo prefácio, discurso preliminar que expõe o motivo da obra e processos seguidos por ela, e dessa vez fui até o final.

 

 Apesar do meu descaso com a literatura eu quase sempre fui próximo das artes, já que aos os onze anos de idade passei a estudar no Conservatório Municipal de Arte da minha cidade. Frequentemente vou em museus, teatros e concertos, mas, ao contrário de mim, isso não é comum entre meus amigos, fato que eu sempre tentei entender e só consegui durante a faculdade.

 A arte, manifestação humana de ordem estética, acontece por meio de várias linguagens, como: arquitetura, escultura, pintura, dança, música, poesia e cinema (Manifesto das Sete Artes), através das quais são expressadas ideias e emoções de significado singular pra cada obra.

 A linguagem artística, assim como a linguagem verbal, possui um aspecto dinâmico e, mesmo obedecendo a certos princípios organizacionais, suas convenções variam conforme momento histórico e espaço social. Dado que, como meio de expressão, a arte dá forma às vivências humanas, conhecer seus códigos formais: gêneros, estilos, técnicas, temas, contexto, é o que possibilita sua compreensão de forma consciente.

 

 Depois de conhecer as influências literárias que levaram Machado de Assis a escrever Dom Casmurro, sua intertextualidade com Otelo de Shakespeare e o contexto histórico sobre o qual a obra foi construída, eu possuía as referências necessárias que me permitiram compreender a obra em sua totalidade e entender que sua composição não estava baseada em ciúme, adultério ou tragédia e sim em ironia, ceticismo e ambiguidade.

 Em suma, a capacidade de interpretação que um indivíduo possui a respeito dessa linguagem está diretamente relacionada ao domínio que se detém das referências necessárias à sua apreensão, e ainda que as práticas culturais populares sejam uma das principais fontes de familiarização da cultura, para muitas produções será necessário ler o prefácio.

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