Pelo menos ele nunca te bateu!

Ele me dava muita atenção, sempre que eu o procurava ele estava lá para me responder, me ouvir, acolher o meu mundo. Mas eu deveria procurá-lo depois das 21h em dias de semana e depois das 22 aos domingos, sábados eram quase nulos, sua vida sempre tão ocupada e a gente não queria expor nada para ninguém, pessoas sabendo geram problemas que nenhum de nós queria- ou saberia- lidar. Da agenda dele eu não conseguia saber muito, porque ele não gostava de possessividade, cada um no seu espaço, eu dava satisfação porque queria, não porque ele me ligaria a noite inteira até saber onde eu estava. Não. Essa última parte era uma brincadeira da parte dele, nada demais. Eu tinha meu espaço, bem demarcado, bem claro. Estava tudo bem. Tudo bem.
Ele era incrível, sabia dos meus horários, das minhas vontades e manias. Me conhecia tão bem, mas tão bem, que antes mesmo de eu pensar em agir ele já estava lá, fazendo por mim. Fui deixando que as minhas necessidades sobre ele crescessem, fui sufocando minhas prioridades pelas que ele tinha e assim fomos ficando cada vez mais íntimos e ele seguiu me estudando inteira, tinha meu manual e sabia como eu reagiria. Provocava algumas das minhas reações, inclusive. Não era manipulação, não, era apenas essa coisa de conhecer tão bem o outro que você pode tirar o que quiser dele, quando quiser. Eu não conseguia fazer o mesmo porque nunca seria tão inteligente, tão boa, tão forte e persuasiva. Jamais seria uma pessoa digna de ter mais do que ele me oferecia, eu nem o merecia para ser sincera. Eu era frágil, fraca e ignorante. E boa parte desses diagnósticos eu tive depois que o conheci, ele mostrou como eu era. Que bom que alguém tão incrível se interessava por mim, eu tão sem graça no mundo e ele lá, querendo me fazer feliz. Estava tudo bem. Tudo bem.
Ele gostava de estar ao meu lado, mas não entre nossos amigos. Me visitava sempre que podia, mas nunca se eu estivesse entre familiares e conhecidos, sempre nos locais que ele aceitasse, que ele quisesse, que ele entendesse… Mas é que ele era meio mimado mesmo, acontece com pessoas que têm o mundo que ele tinha nas mãos. E eu mentia junto, ia junto, ficava feliz- na maior parte do tempo- junto. Dizia que ia dormir na casa das amigas, mesmo que acabasse voltando no meio da madrugada arrependida, bagunçada por dentro e dizendo que fiquei com vontade de dormir na minha cama, quando na verdade ele é quem tinha sentindo essa vontade e ido embora. Não dava pra ficar até o outro dia, nunca dava. Mesmo quando ao invés de conversar comigo ele ficasse horas no celular e eu bebendo a minha cerveja sozinha, vendo a mesa ao lado me olhar com pena: Estava tudo bem. Tudo bem.
Eu reclamava demais, pedia demais, exigia demais e ia até o sumo das feridas. Pense só que eu fiquei irritada porque só queria segurar a mão dele no cinema e ele disse não, “vai que a gente encontra alguém aqui?” Imagine só! Que bobagem a minha! Eu era mesmo muito infantil, queria compromisso, queria afeto tranquilo e explícito, sem julgamentos. Bobagem, a gente sabia da gente, ninguém mais precisava entender. Eu era tão ridícula, que achava que ele deveria ao menos me ligar no meu aniversário, pedi uma foto nossa de presente e ele riu- obviamente- porque era tão tolo pedir algo assim. Imagine só. Eu era mesmo uma mulher muito fácil de ser substituída, nem sei como ele conseguiu ficar 4 anos ao meu lado me mostrando o mundo real, onde as pessoas não precisam se assumir pra provarem que se amam. Só eu não sabia reconhecer que estava tudo bem. Tudo bem.
Ele errava, claro que errava. E quem não erra nessa vida? Quando ele decidia ir embora da nossa história eu entendia, chorava no meu carro sozinha de noite- depois das 21h em dia de semana e depois das 22h aos domingos, nunca no sábado- e entendia, que amores são assim mesmo, machucam às vezes. Ficava os meses seguintes idealizando que ele sofria do outro lado do mundo, porque era amor. Eu sei, tinha aquela parte onde ele dizia diariamente que eu não sabia amar, mas olha, eu tava tentando aprender! Mas daí ele percebia que sem mim ficava difícil e voltava, me pedia perdão, chorava, eu perdoava. Ele ia mudar dali pra frente, ia se dedicar mais, mudar a tal tabela dos horários, ser mais afetivo. E mudava, por um tempo mudava e vinha com as melhores frases de afeto, até segurava a minha mão no cinema- quando a luz apagava e a sessão estivesse vazia- e então, novamente, sozinha. No carro. De noite. Mas estava tudo bem. Tudo bem.
Me diziam que aquilo era abusivo, me deixava submissa, me fazia menor do que o meu real tamanho era. Mas ele nunca me bateu, olha só! Ainda que eu saísse sempre com dores no corpo inteiro, tomasse remédios pra ansiedade e outros problemas psicossomáticos que se desenvolveram por uma relação tão estressante, não era abusivo porque eu nunca apanhei. Ufa! Disseram que eu deveria deixá-lo de lado, seguir em frente porque ele fazia de mim o que queria. Mas ninguém me perguntou se eu não queria aquilo, inclusive, nem eu me perguntei. Mas pelo jeito eu queria, porque mulher burra tem que sofrer mesmo, quem manda não saber escolher por quem se apaixona? Se ferra mesmo querida, não tem nem que chorar. E como eu poderia deixar para trás alguém que esteve o tempo todo ao meu lado nos meus momentos mais importantes? Quer dizer, quase todos, ele tinha os horários dele. Como eu poderia deixá-lo se quando eu o deixava ele chorava tanto, se deprimia, voltava pros remédios? Eu sei que não poder entrar no bar onde ele estava com os amigos parecia injusto, mas eu olhava de longe, fingia que não me machucava, eu também não podia ser tão egoísta de querer ele pra mim o tempo todo. Eu precisava dele, mas ele não precisava tanto assim de mim, e tudo bem!
Não, não era abusivo, era o nosso jeito que era meio torto e funcionava. Nunca fui violentada, não pode ser abusivo se não tem violência. Então eu ficava bem. Tudo bem. Sempre bem.
Pra ele, principalmente.
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