De que são feitos os seus guardados?

Como tem acontecido faz um tempo, hoje o dia começou entre caixas. Mais papéis e objetos de papai do que de mamãe, como ela mesma, aliás, costuma bradar, tirando o seu da reta no quesito troféu-acumulador a cada lote aberto, a cada surpresa de reencontro… Porque às vezes, eu acho e talvez ela também, tem cara de vexame guardar uma quantidade tão pornográfica de coisas.

Mamãe esquece, como eu também quase sempre esqueço, uma verdade relembrada recentemente por meu irmão: as coisas às vezes são guardadas por nenhuma outra causa senão para serem depois encontradas.

Às vezes tenho muita dificuldade com as coisas que encontro. Quando o material acumulado de uma vida se reúne dentro de alguns metros quadrados e é preciso caminhar em torno, tomá-lo em mãos e triá-lo entre fica ou sai, o cheiro forte e inconfundível das coisas guardadas fede à coisa triste ou exala o perfume da mais gostosa nostalgia; sem chance para muitos meios termos, morte e vida disputam prevalência no corredor apertado do conceito das memórias – porque uma vida assim, a meio caminho entre conteúdo palpável e etéreo, é um corpo despedaçado que, para poder se compor pede que dele se faça alguma coisa.

O encontro com as coisas de papai por vezes dói de horror, por vezes dói de lindo. Mas sempre dói porque a poesia em suas pontas de eco e desamparo é um território de extremos – e principalmente de marcas esculpidas em ponta de lança.

A depender do momento de vida em que estivermos quando essa exigência nos cruza o caminho, lidaremos de modo distinto com tal demanda, mas as decisões que tomarmos nos marcarão para sempre, eu acho.

Houve dias muitos alegres – cada achado inusitado, cada anotação curiosa, cada recorte de jornal e cada fotografia tinham conotação comemorativa. Mas houve dias muito mal humorados porque no centésimo achado inusitado, na centésima anotação curiosa, no centésimo recorte de jornal e na centésima fotografia, a fartura deu notícias de que o tê-la imporia aquele preço alto: o fazer alguma coisa! Faça alguma coisa nem que seja jogar tudo fora – se o preço de recusar-se ao manejo não lhe for mais caro do que abrir e verificar caixa por caixa ao longo de uma inexata quantidade de longos dias.

Dentre provas da graduação, documentos do mandato como síndico de três edifícios, santinhos de candidatura a vereador, recibo de rescisão em cinco empregos, semanários de professor, questionários anônimos de “o que você achou do meu curso?” respondidos com sinceridade assombrosa, telegramas e um espólio de não identificáveis, tive a impressão de que as caixas todas foram abertas quase de modo cronológico pois, após atravessar os 50, 60 e 70, finalmente cheguei aos 80.

Com a mesma apatia dos últimos dias foi quando encontrei um envelope. Dentro dele uma pasta. Dentro da pastinha uma única folha de papel. Um teste de gravidez de minha mãe. Se pela data não era relacionado ao meu irmão, só podia ser a mim. Será mesmo? Cheguei a calcular, fantasiando que, sabe-se lá, vai que mamãe teve outra gravidez que não sabemos?

Se é que alguém pode sentir-se grávida de si mesma, foi essa a sensação que tive naquele momento em que o cálculo bateu exato. Como nunca antes a sensação de estar dentro de mim – e isso não é uma redundância. Se por meio daquele documento se inaugurou em 1987 algum lugar para mim no desejo de papai, hoje, por meio do mesmo laudo, se inaugurou para mim um lugar de filha adulta na história daquelas coisas que eram dele.

Até então eu remexia naquilo tudo como coisa estranha à minha existência, sem me dar conta de que o conteúdo das caixas era, talvez, última oportunidade para conhecer em maiores detalhes a história de meu pai e, portanto, a minha própria história como sujeito que, a certa altura, passou a integrar a família que era também a dele, fundada na parceria com mamãe.

Depois que o pai homem morre e nasce o pai simbólico é que a gente percebe com mais saturação do que as fotos dos anos 60 o quanto carecia de perguntar, de conhecer, de entender o pai que era homem antes de ser pai, sonhando anacronias. Depois que um exame de gravidez nos remete a um tempo no qual o nosso corpo não existia e, portanto, no frigir dos ovos estávamos mortos, é que a gente pode deixar um tanto de lado o filho exigente, irritadiço das manias do pai, para nos questionar a respeito do filho que éramos antes de sermos os filhos que fomos ou somos – de nos depararmos com o que nos fez um dia filhos para de filhos nos tornarmos sujeitos também desejantes e para lembrarmos que tanto lá quanto agora o que nos continua a fazer existência possível é o nosso lugar no outro, o nosso ser para o outro.

Os objetos de uso cotidiano ou corrente, as roupas todas, o travesseiro e quaisquer presenças de meu pai na casa, salvo fotos, receberam rapidamente um tratamento racional e destinação logo após sua partida. Tratamos de eliminar o cheiro dele, morar fora um tempo e, na volta, dar um tapa na casa e seguir numa boa vibe. O que eu não podia imaginar é que dentre as dores e as delícias (e sim elas existem) de um luto já bem encaminhado, haveria essa descoberta de que lutos não englobam apenas a lida com a ausência do outro que conhecíamos, mas o aparecimento e a lida com a presença do outro que não conhecíamos – o que tende a ocorrer cada vez mais ao longo dos anos.

Talvez pudéssemos ter aberto todas essas caixas juntos… mas aí provavelmente teria sido o pai homem junto da filha depois de ser filha. Deixemos então essa, que não é mais filha, tomar à frente porque, feito aquela do exame de gravidez é, idealmente, a filha do pai.

Mamãe resgata e lava um pratinho chinês pra botar um queijo fresco, acha ótimo encontrar a caixa de azulejos da piscina pra substituir os trincados embora a cor dos cloro-à-sol seja infinitamente distinta daqueles ali ainda virgens. Depois de matar duas aranhas com vassouradas objetivas, faz um escândalo ao ver uma réles lagartixa fujona e, num saco com jimo, a ser aberto somente daqui três dias sufoca a cadeira de vime na fé de que vale a pena guerrear com cupins enquanto comenta que, seu pai, meu Deus, que mania daquele homem guardar tudo!

Encerra, por fim, que o exame também deve ter sido guardado por ele porque ela, magina, nem precisava tê-lo feito – já se sabia grávida na própria noite em que me fizeram.

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