Mulheres secas também geram lindos frutos

Descobri a esterilidade numa manhã de segunda-feira quente, daquelas que a gente não tem vontade de pisar na rua, mas precisa fazer o dia render. Eu estava passando pelo auge das minhas crises de saudades de casa, visto que havia me mudado de cidade fazia pouco tempo ainda. Meses antes eu já vinha sofrendo com algumas dores e sabia que precisava fazer os exames preventivos, principalmente porque tenho históricos familiares de câncer. Enfim, peguei folga do trabalho e tirei o dia para uma bateria de situações desconfortáveis que envolvem essas coisas.

O diagnóstico definitivo veio depois, na sala gelada de um consultório branco demais para dar notícias tristes. Lembro de ver o semblante da médica extremamente calmo, maternal e caloroso. Contar para uma mulher que não chegou aos 25 que ser mãe não será um projeto fácil, seguro e simples, é como bater no ombro de uma pessoa recém ingressada na faculdade e dizer baixinho:“Não vai dar pra você”.  Me senti num estado de confusão intenso, porque ao mesmo tempo que algo dentro de mim se sentia totalmente vazio, outra parcela não queria acreditar. Confesso, nunca pensei na maternidade como ideal de vida e centenas de vezes afirmei que não a desejava sedentamente, contudo, era uma possibilidade, a porta estava aberta e eu poderia- quem sabe um dia- ter um filho. Agora não, ainda que em termos eufêmicos ela quisesse me fazer sair o melhor possível de lá, a realidade era bem clara para me iludir.

Passaram alguns meses, eu pouco falei sobre o assunto com as pessoas. A vida seguia seu curso normal, até que ouvi no ônibus uma moça conversando com uma mulher mais velha que contava ter cinco filhos e o primeiro neto nascendo. Ela, feliz, contava que a nora tinha tentado muito ter um bebê e felizmente conseguiu, depois de um tratamento longo. Em meio um sussurro ela chega mais perto de sua ouvinte e diz: “A gente pensou que ela era seca, sabe? Mas graças à Deus não é, pense que tristeza uma mulher seca.” Fiquei estática, não consegui acreditar no que ouvia. Me afastei dela e decidi ficar mais perto da janela, coloquei os fones de ouvido. Dentro de mim me sentia exatamente como ela disse: Seca. É cruel pensar isso, jogar encima de uma mulher a obrigação e cobrança em ser biologicamente “normal”. Sem falar nas cobranças de que você precisa ter um filho, mas não tão jovem, não tão velha, não só um filho, dois está bom, três você é uma medieval louca. Sem comentários! Mas aquela afirmação dela caminhou comigo por dias, ser uma mulher “seca” não é o fim do mundo, concluí por fim. E eu te digo a razão.

Nós não teremos um bebê na barriga, mas nada nos impede de adotar uma criança, de sermos boas mães apesar de não podermos gerar do modo convencional. Ninguém pode impedir o nosso desejo maternal de acontecer e o fato de algumas mulheres não terem esse desejo, também não as faz menos mulheres por isso. Não é de hoje que venho observando esse peso abissal sobre nós, de sermos olhadas com pena porque nosso ventre não tem as proporções exatas ou não pode ser fecundado para gerar uma criança, ou enfim. Ainda que batam em nossos ombros e digam que a vontade de Deus é maior- e eu sei que é- calma aí, a gente talvez tenha aceitado bem a condição de que Ele quer que meu colo seja de um bebê que talvez não saia de dentro de mim ou que talvez eu goste mesmo da ideia de ser uma boa tia, madrinha ou qualquer coisa parecida.

Triste, meu amigos, não é ser uma mulher “seca”, não é ter que ver outras mulheres frutificando com mais facilidade, não. Triste, meus caros, é achar bonito jogar em nossa cara que não seguimos os protocolos que as pessoas cruelmente acham que é verdade. Triste é alguém sentir prazer ao se ver dizendo que não somos capazes, que somos secas e fazendo-nos acreditar que não nascemos tão mães, tão mulheres quanto qualquer outra. Secos são aqueles que acham que o preconceito irá algum dia calar o que mais belo existe dentro de nós: O amor.

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