Feridas de guerra não me envergonham

Eu queria te avisar que estou indo bem. Mudei radicalmente o corte de cabelo, tô usando aquelas cores que me deixam mais suave e aceitei de um amigo a dica de ter uma gaveta só para meus cadernos e rabiscos na cabeceira para quando eu acordo de madrugada e não quero perder a inspiração. Mas por mais que haja um pouco de você em cada coisa, não há você em coisa alguma. E isso, vez ou outra, ainda dói.

Eu abri uma ferida bem no meio do meu peito, a profundidade dela dava para colocar um braço inteiro e em alguns dias eu tenho a impressão que um braço invisível faz o favor de abrir ela mais um pouco quando eu me distraio e deixo suas mentiras ainda agirem sobre mim. Saber que essa ferida foi a única coisa que você deixou para trás me dá a impressão- e a certeza- de que eu fui uma maneira egoísta de você provar para si que é capaz de afetar alguém profundamente. Você me via na rua sangrando e sorria orgulhoso, como um artista mostrando seu quadro aos amigos e dizendo “fui eu quem fiz”. Eu sou uma obra sangrenta na parede do seu ego, e não nego.

E no final de tudo isso eu só espero que você esteja bem. Porque não aceitaria de maneira alguma você voltando com os olhos baixos me pedindo mais um bocado de fé em nós, mesmo quando eu já cansada de me manter em pé tinha que reunir forças para te dar o pouco de energia que ainda me restava. Eu não conseguiria aceitar que o amor pode ser um engano tão profundo e tão violento que faz do outro uma caricatura horripilante de uma versão boa que um dia nós fomos, ou acreditamos ser. Não. Das outras relações que eu pensei que iriam preencher esse rombo na minha auto confiança e sanar de alguma forma a minha decepção em te ver indo embora sempre que eu pedia para você ficar, eu só aprendi que antes eu deveria ter curado o estrago que foi feito em mim, para então, poder oferecer algo de bom para outrem. Mas bem ou mal, eu tentei. Estou aqui agora olhando com gratidão até mesmo isso.

E olha, eu acho que não te explicaram isso na época em que sadicamente você fez questão de me arrancar as coisas boas que um dia carreguei, mas o amor não é a busca do benefício pessoal como você tanto acredita. Mas sim a luta pela alegria do outro. Eu percebi isso porque quando anulei todas as minhas alegrias aceitando o que viesse da sua mão, eu só queria te ouvir dizer que ao meu lado você estava feliz. Eu só entendi que eu amei de verdade e você não, quando vi que a sua alegria estava em me ver incompleta e na lona enquanto você se sentia realizado por ser novamente uma chaga. E isso, meu bem, por mais que te coloque num patamar onde na sua cabeça eu saí perdendo quando em um ato de revolta eu decidi pegar as minhas coisas e sair definitivamente da sua vida, só prova que nem sempre quem sai ileso e vivo venceu realmente uma guerra. Muito pelo contrário, as minhas cicatrizes fizeram de mim alguém sem medo de amanhã querer arriscar de novo.

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