Um feminino florescente

Por urgência e necessidade fala-se muito de empoderamento feminino. Mas que possam os homens perceber o quanto os “novos comportamentos” das mulheres podem lhes oferecer oportunidade de empoderamento também.

Essa mulher que exerce seu feminino sem recorrer a velhos clichês e empreende novos tipos de laços com outras mulheres, permite ao homem ocupar novos lugares e assumir melhores papéis. Sinto que os homens a cada dia perceberão mais em falta a mulher que sentindo-se ameaçada por outras mulheres age de modo destrutivo, a mulher que faz uma sobremesa primeiro e na sequência traz o assunto sério, a mulher que toma as decisões e sedutora faz-parecer ao marido que agiram em conjunto; em falta a mulher que barganha com a culpa do seu homem, a que faz dele um menino alheio enquanto orquestra a cena do relacionamento e a cena familiar.

Vejo no horizonte que essa figura tantas vezes repetida por gerações e gerações de feminino sem voz está perdendo lugar para uma voz que chega cada vez mais sincera e menos ressentida, ansiosa por um agir que opera mais longe das sombras e mais perto dos holofotes – às vezes numa luz de cegar. A maioria das mulheres da minha geração parece cada dia mais inábil para performar no campo das intrigas. Suas lágrimas agora servem apenas para celebrar as lutas, porque para conseguirem o que querem, tem força suficiente para bater na mesa. Aprenderam a dizer o que querem com todas as letras e mais importante: aprenderam a dizer que, na verdade, não sabem o que querem – apenas supõe, erram, acertam, como todo humano. Assim, mais do que exigir qualquer coisa dos homens, são causa de que eles exijam mais de si mesmos, como amantes, pais e até mesmo como filhos.

Conquistamos o direito de conseguir o que queremos articulando ideias – porque nos tempos que correm é com palavras, não mais com pessoas, com que se pode jogar.

Não sei quão difícil será para os homens se entenderem com essa mulher tão sublinhada em seu tracinho histérico – essa exaltação que agora pulsa, por vezes tão verborrágica, talvez seja o avesso do silenciamento que um dia nos fez sofrer dos nervos levando a psicanálise a cunhar o tão famoso termo. Nossos tempos reeditam conceitos. O feminino de agora quer-se ilimitado, open-source.

Talvez os homens se vejam meio desengonçados e ruins de rebolado – mas rebolar, sabemos, pode ter lá suas delicias e essas, assim como as dores, são agora partilhadas. Denunciamos muito, mas reinventamos também. E não só de ganhos é que a coisa fica mais bonita. Porque renunciamos ao lugar de companheiras. Mas vejam só que boa notícia: perdemos algumas letras para conseguirmos cunhar nesses novos tempos, pela falta e lado a lado, aquilo a que se chama “companha” – grupo de pessoas que seguem juntas.

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