Pare de me buscar em outros olhos

 

Vai lá com seu mais novo amor e finja direito dessa vez, por favor. Mente que essa pessoa te liberta como eu faço, aprende a dançar com ela quando estiverem no meio de uma boa festa e deixa essa sua nova aquisição te fazer rir até cansar com as felicidades pequenas dela. Comece a admirar o modo como ela prende os cabelos e tenta- tenta mesmo- fazer aquela cara de quem viu a coisa mais bonita do mundo como você fazia quando eu colocava um coque mais alto e ficava uns fios soltos de teimosia. Leve-a para comer uma bela comida japonesa naquele restaurante que quase ninguém conhece, mas me fez chegar ao ápice de alegria quando comi o temaki de camarão que eles fazem. Apresente-a aos seus amigos e pergunte se ela é melhor do que eu, pergunte mesmo. Mas peça respostas sinceras, por favor.

Quando ela beber um pouco a mais, converse em inglês com ela e pergunte coisas tão profundas e nocivas, será que ela consegue conciliar sentimentos, concordância verbal e amor, tudo isso sem ter medo de revelar quem é? Faça ela tomar uma cerveja quente no gargalo da garrafa, como fizemos naquele dia em que despedidas e um bocado de amor ainda circulava em nós. Permita que ela mostre o pior defeito que a aflige e que com maquiagem e boas poses ela esconde de você. Descubra quem ela é de verdade e depois me conta, valeu me deixar de novo por alguém que sequer consegue se despir inteira? Obrigue-a a ser perfeita como você espera que ela seja, assim, ela será bem melhor do que eu. Ou não, talvez você morra de tédio.

E quando o ciúmes dela pintar os olhos e te enlouquecer, procure a minha falta de filtro e o meu jeito torto, errado, violento, mas sincero de amar. Eu sei que se ela está no meu lugar deitando no seu ombro é porque eu nunca soube conviver direito com aquilo que me prende. Eu sei que se ela hoje precisa te dar o corpo inteiro e aceitar você de qualquer maneira, é porque contrário de mim ela nunca conseguirá te contar tudo com apenas um olhar. Mas você sabe, que mesmo sendo toda errada e tão intensa e tão efusiva e aberta, eu nunca deixei de assumir que isso tudo é o que me faz humana e sempre te pedi para se orgulhar das feridas que sangram dia após dia, em você e em mim. Mas a minha humanidade parece que foi demais, não é? Então, vai sim com seu novo amor que quando você manda sentar ela senta e quando você manda ela voltar ela volta. Vai. Aprende a dar seus horários e argumentos para ela entender que você precisa do seu espaço, mas ela não vê. Tenta mentir par si que ela não te sufoca, não te dá sono e que ela é mesmo interessante mesmo pensando como ela pensa e não conhecendo metade dos filmes e livros que eu conheço. Conta pra ela que por mais que ela se esforce, jamais será um fio de cabelo do que eu fui na sua vida, não vai te provocar meio sentimento que eu te provoco ainda hoje, mas quem sabe ela aprenda a abrir um novo lugar aí nesse coração em chamas e seja um bom totem para se levar nos casamentos e jantares entre casais de amigos.

Eu sei, sou destrutiva demais para poder viver para sempre na sua vida. Eu sei. Tem dias que conviver comigo nessas solidões que aprendi a abrigar, é terrível. Então, pede para que na normalidade, animosidade, conformidade e submissão que esse novo amor te oferece, ao menos uma vez por semana faça você se sentir vivo de verdade. Tente buscar nos seus momentos de carícias o meu perfume, minha pele, que mesmo você não tendo degustado por inteiro, te fez mais feliz do que com ela que hoje divide o mesmo lençol que o seu. Vai, vive esse teu novo amor. Mente para você e para ela, finge em prol da felicidade de vocês dois. E tenta pela primeira vez em décadas, não pensar em mim antes de dormir.

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