Me deixa machucar você

Chorei um pouco e abri a janela. Tem horas que mesmo quando a alma brinca de se curar, ela dói. Eu juro passado nas cores que te formam, mas quero cinco minutos a mais brincando que você não dói, mentindo pra alma enquanto ela mente pra mim. Queria dizer que depois de tão pouco tempo o seu destempero não me cabe nos lábios e quem sabe assim esqueço da tua boca brincando de encostar na minha, mentindo.

O teu não sentir me estragou a saliva, me amargou o sorriso. Me usou. As tuas declarações não expostas em pratos limpos na hora do café e a tua indiferença ao que eu sentia nos pedaços que escorreram pelas paredes ao meu redor, isso me arrancou a voz da garganta como um ladrão sem piedade no meio da madrugada. E não são os cigarros que você não fuma nem a tua voz meio sonolenta me pedindo pra entender, não é aquele teu jeito de me engolir em praça pública e nem o teu sorriso escandaloso numa roda de amigos. Não é o teu copo onde eu bebericava da tua bebida querendo que aquilo fosse um beijo. O que me faz saudar a tua ausência é o teu conjunto que você usa pra dormir, mas não gosta. São os fios de cabelo que caem na sua testa depois que você toma banho ou chuva ou sai correndo pintando felicidades nas minhas neuroses. São as milhares de vidas que eu planejei ao seu lado querendo que nenhuma delas te roubasse da outra metade do meu travesseiro enquanto você ria da minha honestidade em sentir e ver amor onde não tem.

O que me amarra os calcanhares na tua esquina é a minha coragem em não pensar duas vezes pra te pedir pra ficar ou voltar ou chegar daqui uns dias com a mão no bolso sem muito pra oferecer e eu te querer mesmo assim. O que me deixa balançar para trás quando o assunto é a tua não estadia no meu cotidiano, é aquele teu jeito de se ajeitar no mundo e ficar bem em qualquer situação ou estação do ano, enquanto eu sou tão torta e desgraçada e violenta com o que me faz bem. O que me faz deixar uma lágrima quente correr pelo meu rosto frio e duro é saber que eu te dei tudo, eu abri meu mundo e você não quis, me fazendo então me trancar abaixo de sete palmos de ironia. Inacessível e profunda. Afogando corações curiosos e machucando amores honestos.


E se eu pudesse explicar as coisas que me fizeram querer permanecer ao teu lado mesmo sabendo o quanto tudo em mim é nocivo, eu talvez te perca para o primeiro vento que sopre mais forte. Talvez se você chegasse aqui com algumas mentiras convincentes e me tocasse a pele provando que o mundo inteiro está errado, talvez assim, quem sabe desse jeito, eu conseguisse seguir adiante e não mais querer amarrar os meus cabelos na sua sombra, nos passos sangrentos que te definem. Quem sabe assim a teoria de que o mundo inteiro não faz parte de você, se desfaça e eu possa fazer parte de pelo menos os teus sonhos bons e desejos de felicidade. Assim, como eu me desfiz em pedaços insalubres e desconexos ao teu virar de costas e ao teu fechar de olhos sobre o nosso amor- que não se sabe ao certo se existiu ou foi mais uma das minhas projeções famintas no mundo- espero que um dia você entenda que se esmigalhar por alguém é um ato de nobreza. Uma escolha de entrega quase masoquista que permite que alguém te toque profundamente a ponto de te ferir e marcar para sempre. 

Quem sabe, pensando assim a alma cure. A falta se perca. O amor renasça. Quem sabe de nós amor. Quem sabe?

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