Você deveria conhecer a Dona Maria

Cresci numa casa simples, de pessoas simples e carregadas de histórias. Histórias das boas, que a gente deveria escrever um livro com capa rústica, feito de amor e coragem. Sentimentos sinceros, obstáculos vencidos, sangue e suor na luta de ter o básico, o simples e muitas vezes altruísta nessa insistência diária que é não sucumbir aos venenos que o mundo oferece. No topo dessa casa cheia de personagens diversos, estava dona Maria acolhendo todos que em sua porta batessem. Minha avó é mulher das fortes, me criou desde os onze meses desafiando os julgamentos alheios, apanhou feio da vida e nunca deixou a esperança cair. Sempre com os olhos visando o futuro e construindo uma ponte larga e acolhedora para todos que a procurassem, ela ofereceu o seu melhor para qualquer um que precisasse. Mesmo quando a sua vida parecia melhorar a ponto dela poder deixar de lado certas coisas simples, a mulher que já vendeu sorvete, já foi caixa de lotérica, já costurou muito nessa vida, nunca deixou que seus pés saíssem do chão e sempre fez questão de deixar bem claro a essência pura que a compõe.

O café dela lá pelas cinco da tarde e na casa simples de um bairro simples de Curitiba, pode aquecer  até os corações mais frios. O bom dia dela que vem com um beijinho na testa me chamando de “luz da casa”, faz eu ter certeza de que nasci pra ver os olhos amendoados dela brilharem quando algo a encanta. E quando ela nos acolhe mesmo em nossa pior versão, a gente entende que existem pessoas nesse mundo que conseguem transcender qualquer estereótipo que você tenha sobre alguém. Maria me ensinou a perdoar, porque isso é um ato de liberdade. Me disse milhares de vezes que a gente está sozinho nessa vida na maior parte do tempo e que são poucas as pessoas com quem podemos contar, mas precisamos estar disponíveis para quem nos busque como auxílio, seja quando e como for. Nunca me permitiu me revoltar com as curvas que a vida tem, com as decepções que já passei, os abandonos que sofri, sempre me incentivou a superar e usar isso como alimento de caráter e ter claro em mente o tipo ser humano que eu gostaria de ser.

Os anos têm passado para nós, já não caibo mais em seu colo e não posso mais correr para sua cama quando o escuro aflige. Lembro de madrugadas frias onde ela precisava entregar o trabalho à tempo e virava a noite acordada, enquanto eu ainda pequena ficava ao seu lado ouvindo a máquina de costura trabalhar e dormia em suas pernas ou nas caixas de lã ao redor. Lembro de como com sacrifício ela me deu o melhor estudo e nos tempos de faculdade éramos nós duas, apenas, contando o dinheiro pra saber se daria para o ônibus até o final do mês ou se acabaríamos tendo que vender alguma coisa na casa para dar conta. Lembro do choro doído que dividimos várias vezes, dos momentos que só nós duas sabemos e entendemos, dos dias em que ela- cansada de ser forte- soltou sobre mim a versão frágil que quase ninguém conhece e que me fez querer ser apenas razão de orgulho porque alguém como ela não merece sofrer nem que seja de dor de dente nessa vida. Há quase um ano lembro de ouvir ela me dizer que jamais iria me visitar em São Paulo, mas apoiava meu projeto de morar sozinha por um tempo e buscar algo maior para minha vida. O combinado era: Eu iria uma vez por mês visitá-la e ela não entraria em um avião nem sob chantagem. O resumo disso foi que agora ela já visitou meu apartamento umas quatro vezes e anda super antenada nas promoções de passagens aéreas.

Maria construiu em mim pilares que serão eternos, passados adiante com toda honra e respeitados com orgulho. Ela é responsável pela minha história, mas tem mais umas mil vidas que foram tocadas pelo coração gigantesco que ela carrega. Quisera eu conseguir expor todos os testemunhos de pessoas que foram acolhidas por Dona Maria, mulher que perdeu o único filho precocemente, mas fez da sua casa lar para muita gente. É vó de muita gente. É amiga de muita gente. É colo de muita gente. Quisera eu ser metade da mulher que ela é, não só em beleza e sabedoria, mas sobretudo como ser humano aberto, receptivo e sem preconceitos. Acho que hoje, no dia dos avós, nada mais bonito do que dividir com todos a importância da minha avó, que me escolheu nessa vida como companheira de batalha e foco de sua dedicação extrema, amor incondicional e me faz conhecer diariamente a força da empatia, reciprocidade e respeito. Feliz dia para ela, felicidade a minha poder tê-la comigo. Que todos no mundo tenham a sorte de ter uma Dona Maria na vida, o poder disso é divino.

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