Isso não é uma declaração de amor

Vasculho o bolso do casaco que eu uso em dias de temperaturas inexplicáveis- comuns de São Paulo- e encontro ao invés de uma moeda para ajudar no troco do mercado, um papel dobradinho, perdendo a tinta e acabo sorrindo. Os ingressos do filme meia boca que te fez repousar no meu ombro certas ansiedades, e que por um segundo você detestou, me lembra que eu tenho um lugar nesse mundo confuso onde me sinto em paz. Inteira e tranquilamente em paz. Ele ocupa aquela parte em que eu me encaixo entre seu ombro e braço, que eu sei, te machuca depois de um tempo. Mas você sabe, eu não sei gostar pouco e de maneira indolor, desculpe. Eu vi aquele papel já perdendo os dados e entendi de uma vez por todas que vale a pena mudar a agenda e nos dar um tempo para que a gente se olhe sem filtros e cometa nossos delitos pessoais. Eu amo quando seus olhos focam em mim e eu me sinto uma escolha boa na sua vida, anote isso.

Eu tenho tanto orgulho de sentir o que eu sinto por você. Não somente pela pessoa que eu acabo me tornando quando estou contigo, mas principalmente por ser você. Eu gosto muito de saber que sentir essas infinidades todas ao seu respeito me torna uma pessoa em evolução constante e me dá a oportunidade de encarar fantasmas tão meus e tão ocultos que te fazem deixar uma lágrima de respeito escorrer. Eu me orgulho de ver um bocado de destino em nós, como se eu tivesse que ter navegado águas turbulentas para poder chegar até suas mãos que encaixam na minha nuca enquanto o seu beijo me tira o chão. Eu vejo um tanto de sentido em tudo o que passou quando eu percebo que você está do outro lado da linha, da estrada, da ponte aérea. Mas aí eu abro um bocado do meu coração para que você sinta o calor que emana de mim quando você está perto e tenho medo novamente, como se por algum segundo você possa correr o risco de esquecer que eu tenho mágoas profundas que me fecharam de uma maneira tão definitiva e acabe não se dando conta da superação que é abrir as portas para você sentar e tomar um café, reclamar do meu banheiro, me fazer ser a sua menina.

Daí eu deixo a vida fingir que você não faz diferença, que eu quase não ligo para o telefone tocando e recebendo uma mensagem sua com ares de cansaço. Finjo, que eu não quero sair correndo daqui e dar todo meu afeto, parte do meu colo e um chá para que você se sinta melhor do estômago. Finjo com todas as forças que eu não sinto saudade, que eu não sinto seu cheiro espalhado nos cantos da casa, que eu não deixei um cabide livre na esperança de você voltar a precisar de um espaço no meu guarda-roupa, eu finjo que não sinto na ponta da língua uma ansiedade boa pra ouvir sua voz. Disfarço meu ciúme- bobo, confesso- que é só o reflexo de uma insegurança que fica no cantinho do meu sorriso pensando nas milhares de opções que o mundo irá te dar e eu poderei ficar olhando você partir sem muito me explicar. Mas me jogo, arrisco tudo, talvez eu me quebre novamente em mil pedaços e você não esteja lá para me ajudar a recompor tudo isso. Talvez. Talvez eu volte a ser mais uma pessoa que não tem pressa de encontrar ninguém nessa vida, que passa de amores ruins para drinks piores na esperança vazia de não ser pré-julgada pelos meus silêncios. Talvez, nessa vida cheia de meios termos e letras pequenas no final de um contrato extenso, onde a gente precisa fingir sempre que sabe o que está fazendo, você seja a minha chance de não ter medo de quem eu sou. Talvez.

Mas olha, enquanto nada disso se responde, me deixa ser a metade de um caminho que você possa caminhar sem máscaras. Descobre num acidente que eu gosto de gardênias e balões de gás hélio, aprende a descansar a sua euforia no meu lado e prometo, sempre haverá minha taça do outro lado da mesa pra te ouvir sorrir ou chorar, prometo, que não haverá mais passado entre meus dedos, nem algemas nos seus braços, nem peso nos teus ombros. Seremos nós dois e o mundo, intenso e marcante, importante e sutil, gostoso de ver até o final. Como um bom e velho filme de Almodóvar. Como a minha não declaração de amor que você recebe todos os dias, que no fundo, é uma oração sincera de gratidão e um punhado de risco assumido deliberadamente. E se for para ir por outros caminhos mantenha sempre esse sorriso que é provocado por mim, a menina que só quer te ensinar que não é a euforia que nos faz ficar lado a lado, mas sim, as coisas simples que faz com que nos encontremos nos versos e sons do outro.

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