Amores sozinhos morrem de sede

Eu vi o amor nascer e morrer em locais tão singelos que poderia ter brotado até no meu coração, por exemplo, mas você não quis. Eu vi amor nos teus olhos verdes que têm linhas de expressão nos cantos, fortes e manipuladores, achando que aquilo me bastaria por um tempo e desejei milhares de vezes que esse tempo fosse suficiente para que você visse amor também e, quem sabe, resolvesse cuidar de mim como eu pretendi cuidar de você- e cuidei. Arrumei a cama, ajeitei a sala, alinhei os cabelos e ofereci o meu mais sincero sorriso para que você encontrasse em mim essa coisa que você sai buscando em todo canto e não acha e tampouco sabe direito o que é.

Te olhei o mais firme que pude e implorei, fica. Você, dentro de toda a sua honestidade fictícia me dizia que agora não dá, semana que vem quem sabe, eu prometo que a gente faz a nossa viagem esse ano, o nosso futuro acontecerá e não desiste de mim, que eu não desisto de você. Eu acreditei. Olha, eu acreditei com todas as minhas forças e esperei o nada que você me oferecia como alimento da alma, eu engoli as suas regras e me limitei em te amar de longe, um aceno de leve, cuidei do teu nome como quem cuida de um segredo de estado. Eu confiei. Te dei as chaves dos meus medos, aflições, te permiti segurar as crises que tanto me envergonham, mostrei a pior versão dos meus segredos e até mesmo de tudo o que eu não sabia que estava trancado em mim, virei livro aberto que você leu e depois enjoou, me deixou na estante. E dia após dia eu ia ouvindo um sussurro no meu ouvido me dizendo que eu deveria ter me cuidado, me entregue menos, ouvido mais os conselhos de café da manhã que minha avó repetia. Mas eu preferi acreditar no que você não dizia, nas promessas que você não fez e nos drinks que nós não dividimos porque você estava ocupado demais para sexta à noite.

Ah meu amor, eu deixei. Confesso que deixei você dizimar as minhas certezas e destruir a minha capacidade bonita que eu tinha de gostar profundamente de alguém e me tornei um vácuo gritante, um silêncio doloroso, uma pedra fixa num ponto final. Deixei. Deixei mesmo você arrancar de mim num corte fino e linear as minhas capacidades de confiar em alguém de novo e deixar que o amor me seja oferecido, porque algo quebrou aqui e fica me dizendo que eu não mereço, que eu não sou capaz. Eu sei, você pode até me olhar nos olhos e dizer que a culpa não foi totalmente sua, que eu sabia onde estava pisando, mas olha, de todas as coisas da vida que nos ferem e doem e que você já fez, eu jamais pensei que encontrar as respostas que eu procurava fossem me deixar tão estática e dura. Eu fico me perguntando se as suas roupas alinhadas e o perfume metódico que você usa te acolhem quando você cansa de ser o orgulho da família e quer tomar uma cerveja no pior bar da cidade, eu queria saber se outros amores conseguem te entender mesmo quando você não entende, só queria saber se eu vivi mesmo tudo isso sozinha e mereço mais do que nunca ficar aqui, sem chances de te machucar porque eu não tenho coragem de chegar à tanto. Juro, não achei que saber que todo o amor que eu permiti me alimentar e ferir e arrancar e sucumbir, fosse me doer assim, de uma maneira tão profunda a ponto de agora não conseguir mais ver o amor nascer em locais singelos. A ponto de não conseguir mais me ver nascendo em lugar nenhum. A ponto de ter te matado em mim e agora não conseguir sequer deixar em nós um bonito e memorável final.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s