O que é combinado não sai caro

A dificuldade de se relacionar se tornou cada dia mais comum nos nossos tempos. Eu ouço as teorias e fico pensando em qual me adaptaria. Dizem que é porque nos tratamos como descartáveis, porque as pessoas não sabem o que é o amor, porque tá todo mundo focado na pegação, o negócio tá no tempero do feijão que mudou no século XXI, deve ser a água e o povo desaprendeu a amar, a tecnologia que aproxima, torna fútil e também afasta as relações… Assim vai. Eu não encaixo em nada. Não me vejo em nenhuma versão. Acredito fielmente que a dificuldade de se relacionar é porque alguns optaram por fazer amor, outros sexo. Uns querem viver uma história, alguns querem viver o momento. E nessa falta de alinhamento, nessa necessidade de estar sempre vencendo num jogo de sentimentos que não deveria existir, na ausência do diálogo as pessoas estão se ferindo de uma maneira que pode ser irreversível e acabam se fechando como quem se protege até do reflexo no espelho. Já diria um amigo, “o que é combinado não sai caro”, e olha, eu concordo mais do que nunca!

Eu só tenho essa versão seca, crua, sem meias verdades. Não consigo acenar educadamente e dizer que concordo porque sim, aceitar o que vier e fingir que gosto. É esse sangue no olho, verdade na língua. Sou do tipo de pessoa que sabe colocar as cartas na mesa e não tenho problema algum de viver o tipo de relação fora do clichê, que se entende e pronto. Felicidade é questão de jeito, tem gente que não consegue dividir a mesma cama, mas se gosta a ponto de enfrentar tudo um pelo outro. Tem gente que só sabe viver grudadinho, dividindo tudo o tempo todo, e se acerta. Tem amor que finge que não é amor, pra não deixar essa verdade tão evidente. E tudo bem. É que eu prefiro mesmo essa minha casca não vestida, a versão não oficial que fica fora do ambiente de trabalho e se rasga diante dos olhos de quem merece. Sou uma versão mais honesta em torno do peito que me acolhe sem escusas, dos pelos, dos medos, da cor dos olhos que me fazem sentir segurança para despir a alma. É esse pé na porta, essa garganta rasgada de gritos e silêncios. E sabe, tudo bem também se você não é assim.

Uma ferida escancarada, esse incômodo no meio da perfeição nem sempre me dá lucros. Olha, na maioria das vezes eu acabo pagando mais do que apostei. Uma parte trincada, uma comida mais apimentada, um cheiro mais forte, me marcam de maneiras profundas, mas nem sempre me alimentam e matam a fome. Não aprendi nessas estradas ser meia entrega e acabei por muitas vezes- confesso- permitindo que quem não merecia visse a minha pele pálida confessar fraquezas porque não combinei antes e acabei pagando todo o preço sozinha. Não me arrependo de nenhum risco que corri, nenhum amor que me fez catar meus cacos depois que a caravana passou e ter que recomeçar sem respostas às perguntas que me foram feitas. Contudo, a dificuldade que eu vejo das outras pessoas em se relacionar está exatamente nisso, na falta de olhar no olho do outro e dizer que quer tudo, que não quer nada, que quer um pouco ou sei lá, vamos vendo… Nem todo mundo consegue encarar essa versão nua de dizer mesmo o que sente, porque ela realmente incomoda, eu sei, e não culpo quem não consegue conviver com isso, mas por favor: Ao menor sinal de alguém que esteja aberto (a) inteiramente diante de você, avise.

Daí as dizem que pessoas assim, que preferem ser a versão sem filtros, escolheram a maneira mais difícil de viver. Certa vez ouvi de uma amiga “deve ser terrível morar dentro de você”, eu só concordei porque eu sei, é mesmo tempestade das fortes. Uma necessidade compulsiva de me sentir viva e uma aversão completa em me permitir seguir alguma regra. Mas, por favor, não limite a minha capacidade de amar. A minha liberdade nunca me impediu de saber os lugares para onde eu sei que posso e quero voltar, não. Sei fazer do coração do outro a minha casa, consegui construir meus ninhos e raízes, contudo, portas e janelas sempre estão abertas para meu voo. Que a verdade seja a nossa melhor roupa, que seja a nossa versão cotidiana esse bom hábito de quebrar as expectativas do outro para que este alguém esteja ao nosso lado por escolha e não por necessidade.

Que tenhamos a paz de não usar desculpas- como o bom e velho álcool da madrugada- para dizer as verdades que nos movem e as perguntas que nos afligem. Aceitemo-nos nas versões variadas que somos compostos e tenhamos orgulho de não sermos tão orgulháveis assim. Mas que nada disso seja motivo para estacionar na evolução, nos escondermos na má educação e usar como desrespeito ao próximo a máscara do “eu sou assim mesmo”. Não. Autenticidade também envolve amor ao próximo, inclusive, ser autêntico e não aceitar o outro é um ato de hipocrisia terrível. Quem sabe assim, mostrando nossa face sem máscaras e com um bocado de paz, não precisemos pagar nenhum preço alto nessa vida e saiamos com saldos iguais de aprendizados. O amor existe meus caros, existe sim! Ele só anda escondido abaixo de camadas de regras, egos, status e contratos não lidos.

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