Quando nos fingimos de cegos, estamos perdendo o amor

O teu sobrenome não tem “n” antes do “g” e eu aprendi isso com você brigando e corrigindo meus contatos no celular na primeira vez que jantamos juntos. Você meia pizza, eu apenas duas fatias. Eu criei o bom hábito de olhar os teus cílios fechando devagar enquanto seus cabelos ficavam no vão dos meus dedos e com o tempo percebi que eu gosto de detalhes seus que eu não sabia existirem em alguém. Os teus olhos carregam um outono intenso, expressivo e silencioso, que me fez pensar duas vezes antes de te deixar me levar para tomar o primeiro café. O seu menos leite, o meu bem branquinho. Tempo depois eu encontrei abrigo em algum pedaço seu que eu encontro sem pedir, mas você não vê. Diz não existir. Fiz em você alguns mapas, sei chegar no seu peito pelos atalhos e não me orgulho disso.

Eu descobri em você, milhares de subtextos.

Não me pergunte a razão, não me questione o que me levou a te escolher para ler tudo com tanta clareza, porque eu definitivamente não sei. Talvez eu tenha acreditado o tempo todo que você não olharia de perto o que eu carrego na acidez do que digo, que me ceguei de alguma maneira também. Você também não vê. Não consegue entender que eu preciso de um aceno, um olhar mais complacente, um carinho com a voz, para que eu não ache que estou jogando todas as fichas num jogo perdido. Quando eu te procuro para expor a fraqueza e a franqueza de não ter medo de encarar o que sinto, parece que você não está olhando. Como se tivéssemos começado do final e eu precise socar o ar na tentativa infantil de ser notada, eu fico procurando o adeus que você nunca diz no bom dia que nem sempre chega. Novamente eu me vejo entre regras e tabelas, entre horários e caos, vou coçando parte da pele até abrir uma ferida e me distrair, mas você não vê.

Entre Aristóteles e Platão, eu fico sempre com Alomodóvar.

Entre uma dose e outra, entre uma fuga e outra, vou te colocando em subterfúgios. Não vou assumindo seus benefícios e danos. Eu tenho medo de você enjoar enfim desse pulso sempre acima da média, desse sabor sempre acima do aceitável. Eu tenho medo que você perceba que é cansativo e exaustivo gostar de mim nessa versão crua que eu me torno quando é você do outro lado da linha, do outro lado cama, encostando na minha pele. Já consigo sentir a saudade de quem eu sou ao seu lado antes mesmo de você ter partido, e sei, que eu não repetirei essa minha versão sólida e transparente com outra pessoa nunca mais. Porque essa sensação de liberdade e calor que eu sinto quando cê me olha no olho e divide meu rosto jovial da minha mente 50 anos mais velha, eu sei, ninguém mais vai conseguir admirar isso. Mas nesse momento sou eu que eu finjo não ver.

Isso explica a minha vontade insistente de te pedir “olha pra mim”, quando o assunto somos nós. É uma maneira concreta de te fazer notar que isso o que temos não cabe na expressão “apenas” porque é mais valioso do que os discursos clichés e expostos que vemos por aí. Te explicar que não tem como voltar para patamares mais sorrateiros, porque desbravamos no outro locais raros demais. É quase impossível algum dia nos sentirmos alheios referente ao outro, porque agora já nos conhecemos afundo. Eu peço para que você me olhe na esperança de que um dia você acabe se encontrando. E assim, vou torcendo que você realmente veja por inteiro o imenso que causa quando sorri sincero. Espero com fervor que você não seja mais uma pessoa no mundo que só é capaz de ver o que tinha em mãos quando o vazio invadir a cena e seu mundo estiver cercado de pessoas que não sabem ler as suas frases não ditas e nem escrever direito o seu sobrenome.

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