Aplaudam os negros, os gays e as mulheres assim como aplaudiram o juiz (mas não de brincadeira)

O juiz brasileiro Jones Kennedy Silva do Rosário é o único do país a apitar as disputas do boxe olímpico das Olimpíadas Rio 2016. O juiz comandou o duelo entre Adilbek Niyazymbetov, do Cazaquistão, e Joshua Buatsi, da Grã-Bretanha, mas ao ter seu nome e nacionalidade anunciados nos alto-falantes, a torcida veio com tudo. Foi possível ouvir gritos como “1, 2, 3, 4, 5 mil, quem manda nessa p*** é o Rosario do Brasil!” até “Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, Rosario é sinistro!”. Ao mesmo tempo em que vivemos um verdadeiro pandemônio nacional devido as crises políticas, conseguimos enxergar que o brasileiro ainda não perdeu a alegria de viver.

Dificilmente um juiz agrada a torcida, e te desafio a encontrar na história dois ou três juízes que tiveram seus nomes exaltados, mesmo que seja por brincadeira. E é aqui que vem o grande X da questão: mesmo que tudo isso tenha sido uma brincadeira por parte dos brasileiros, me aguçou  a curiosidade e me levou a imaginar – mesmo que por míseros segundos – um país onde seu povo, que até ontem odiava os juízes e agora os idolatra, também passasse a admirar e torcer pelos gays. Já pensou que louco seria se esse mesmo povo, que até ontem menosprezava o papel da mulher na sociedade passasse a respeitá-la e jamais admitisse que uma agressão lhe acometesse. Se nesse mesmo país, onde até ontem os negros eram mortos, presos e discriminados apenas pelo seu tom de pele, passassem a respeitar a todos como seres humanos portadores de todas as qualidades que o homem branco achava que só ele tinha? Se todos nós tivéssemos os mesmos direitos e deveres, se todos nós fossemos tratados como iguais? Que maluquice a minha imaginar que numa nação, onde 5,50% da população vive a baixo da linha da miséria (segundo o IPEA) poderia estender a mão aqueles que ainda não encontram o pão na mesa e ajudar essas pessoas a viverem de uma maneira igualitária. Uma pátria onde patrão e funcionários se respeitassem.

Eu sei, pode ser que isso jamais venha a acontecer, pode ser que esse lapso de venerar um juiz não tenha passado de uma brincadeira, e provavelmente muito momentânea, mas seria louco se essa exceção passasse a ser regra e todos que ontem eram odiados passassem a ser respeitados. Seria muito louco se parássemos de brincar de sermos seres humanos e passássemos a exercer de fato a nossa humanidade.

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