Naquela noite eu não queria encarar a vida 

O longo caminho estava ainda maior naquela noite. O barulho da chuva, as pessoas apressadas, os carros e as luzes pareciam estar eternas diante daquele frio. O pesado desafio de caminhar para além da vontade, de seguir além do que me agradava se fazia uma tortura chinesa. Eu não queria enfrentar aquela noite, não queria caminhar desviando de poças, nem pegar ônibus lotado com aquelas pessoas molhadas e chatas. Elas são chatas no olhar, um exemplo disso é aquela senhora que parou em pé ao meu lado com o seu guarda-chuva aberto, cujas pontas se faziam verdadeiras calhas trazendo enxurradas de água gelada que caiam ao chão e respingavam em mim. Ou mesmo aquele senhor que parou um tanto afastado do ponto debaixo do seu guarda-chuva que estava debaixo de toda chuva do mundo, acendeu o seu cigarro que acabou molhando – como se não fosse óbvio – e o imbecil jogou aquele monte de papel com tabaco podre no meio da rua. A mesma rua que estava com pedaços de papelão ameaçados, esmagados, triturados, virados numa lama nojenta, mas que outrora serviu de cama ao morador de rua sujo, esfomeado mas infinitamente mais interessante do que aqueles moribundos que me cercavam.

Sim, eu prefiro os moradores de rua, os fumadores de pedra, os bêbados do centro do que as pessoas vazias que são tão imundas por dentro quanto eles são por fora. Eu odeio a falsa modéstia, odeio a felicidade mentirosa desse sorrisinho amarelo que as pessoas naquele dia no ponto demonstravam ao olhar para o celular que era tirado do bolso com todo cuidado para não molhar. Quando você olha para um morador de rua você sabe que ele tá na merda e só o fato dele não tentar esconder isso atrás de um sorriso falso já o torna infinitamente mais interessante do que aqueles moribundos bem arrumados.

Naquela noite eu não queria sair, eu não queria encarar essas situações, eu já tinha problemas demais comigo mesmo. Estava de saco cheio – e ainda estou – de viver uma vida mecânica, de encarar chefe chato, de seguir as regras do sistema. Acordar cedo, ir pro trabalho bater continência pra um cara que não quer nem saber se você está feliz ou não, aguentar humilhações em nome de um salário no final do mês. O salário vem pra você comprar seu celular ou seu cigarro, para assim fingir uma alegria e quem sabe conquistar o apreço das outras pessoas. Eu geralmente encaro essas noites com facilidade, mas naquela noite eu estava como aquele papelão.

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