Nós rezávamos para o inverno não passar

Cresci ouvindo minha avó me ensinar a dizer que ela era uma Retilinista, quando me perguntavam no que ela trabalhava. E posso até dizer que essa foi uma das primeiras palavras com mais de três vogais que eu aprendi. Não costureira, não tecelã, mas sim, Retilinista. “Eu trabalho com máquinas de retilínea”, dizia com ares de ensinamento e orgulho. Cresci ouvindo as suas máquinas de retilínea com seus motores estrondosos durante madrugadas a fio, fazendo blusas de lã em todas as estações do ano, acompanhada das preces para que o inverno viesse mais forte dessa vez- podem culpá-la pelos graus abaixo de zero que já fizeram na cidade Curitiba, mas nós precisávamos comer.

As pessoas só lembram de comprar blusas de lã quando o frio aperta, assim como o amor, que as pessoas só entendem que faz bem quando não o tem mais.

Anos depois- há algumas semanas, para ser exata- estávamos vendo televisão no meu apartamento, agora em São Paulo, e ela viu no jornal uma entrevista com uma costureira que usava uma máquina idêntica a que ela tem em casa e que não é usada há anos. O jornalista falava que a costureira alguma coisa… Então ela interrompe, me olha e diz: “A retilinista, né?” Eu sorri e concordei com a cabeça. Falei que aquela máquina era igual a nossa, ela disse com ares de orgulho: “Foi aquela máquina que te trouxe até aqui”. Eu respirei fundo, me orgulhei também. Tem coisas que nos marcam de uma maneira profunda, comecei a lembrar de quando entre uma mamadeira e outra eu dormia nas caixas de papelão onde vinham as encomendas de blusas, esperando ela terminar as costuras. Lembrei das vezes que eu dormia até mesmo dentro das máquinas, porque ficava mais perto das pernas de Dona Maria e me aquecia enquanto ela fazia blusa atrás de blusa para ter o pagamento no final do mês e converter aquilo em comida, roupa, escola e tudo mais que deveria ser obrigação dos meus pais, mas foi apenas dela. Aprendi a contar usando botões de casacos que ela pregava e ia contando em voz alta para me ajudar a decorar a ordem dos números, as cores foram aprendidas nos novelos de lã, nas combinações de fio, meus primeiros livros todos comprados com o resultado das 400, 500 peças que ela fazia ao mês. Era penoso vê-la no meio de tudo isso colocando o almoço na mesa todos os dias no mesmo horário e largando da máquina para me levar e buscar na escola, verificando minhas golas sempre plácidas e brancas, cuidando dos meus cabelos e tarefas de casa, dando bronca nas notas de boletim que viessem abaixo de 8- era exigente a Dona Maria. O tempo foi passando, os gastos aumentando e o sonho da faculdade nascendo, as encomendas de blusa precisavam aumentar, o trabalho foi aumentando, a vida foi apertando e a gente se virando. Costurando aqui, pregando ali, soltando lá. Demos nosso jeito, já são 25 anos desde então.

Era tudo mais simples sim, nossa casa, nossa comida, nossas roupas. Era tudo bem diferente sim, o cheiro do colo, as companhias e as conversas. Nunca imaginei que conseguiríamos mesmo pagar um carro, sonhava em sair da minha casa e viver minha vida, mas tantas vezes achei que não chegaria lá- e nem sei se vou chegar mesmo. Veja só como as coisas são. Tantas vezes a gente teve medo do mundo juntas e engoliu em seco as dificuldades que surgiram depois. Hoje vejo a vida que venho construindo na base de suor e muita correria, mas muito mais segura e forte graças ao exemplo que tive em casa. Hoje vejo Dona Maria me ligando pra dizer que vai passar mais um mês viajando e descansando na praia, consigo sorrir um pouco mais em paz ao saber que sua preocupação agora é bem menor. Passou o tempo de rezar pro inverno voltar com força, passou o tempo de pedir que o dinheiro dure até o final do mês. A gente continua lado a lado fazendo parcelas, se ajudando como pode, não vou mentir. Eu continuo buscando o que é meu sabendo que a estrada só não é mais dura porque tive alguém que cruzou noites costurando uma oportunidade de sucesso. O som das máquinas de ritilínea não são mais ouvidos nas madrugadas daquela casinha que continua simples, cheia de histórias para contar e café na mesa todos os dias às 17h.

Ali, onde muita lágrima e reza foi depositada, foi cenário dos maiores milagres que se pode imaginar. Ali, onde se ouvia as retilíneas sendo feitas e os fios sendo trançados, já não se vivem mais tempos de desespero. Não. Agora nem o inverno nos assusta mais.

 

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