Sobre dinheiro e outras mentiras

Acordo. “Beijo, amor. Beijo, crianças”. Trabalho. Clima estranho, mas deve ser a crise. Hoje tem reunião, disseram que cabeças vão rolar. Não a minha. Não faz sentido. 10 anos de empresa, nenhum atestado, chuva ou sol às 8h assino o ponto. Abro o computador, tem algo errado, tudo bloqueado. Ligo para a informática e quando me identifico sugerem que eu passe no RH. Vou até lá ansioso. Tremo. “Perdi meu emprego. Perdi minha vida”. Na volta pra mesa que já não posso chamar de minha todos me olham. Me julgam. “E agora?” Minha vontade é de quebrar tudo e xingar até a mãe do meu maldito chefe. Me controlo. Não posso perder a cabeça. Entrego meu crachá e sigo para o ponto de ônibus pensando que agora até esse dinheiro precisa ser economizado. O telefone toca. É de casa. Decido não contar nada para a minha esposa até chegar em casa. Estou muito nervoso. Ela chora ao dizer que nosso filho precisará de uma cirurgia. O plano de saúde cobre? Como vou pagar o plano? Me desespero enquanto peço que ela fique calma. Chego em casa e ela mal estranha minha volta antecipada. Entramos no quarto e: “Acabou. Fui demitido”. Preciso dela. Não sei o que fazer. Minha cabeça tá uma bagunça. Dói. Eu só quero que isso acabe, que essa dor saia. Não posso estar triste, preciso ser forte. Forte. Forte. Ela grita e eu só quero que acabe. Forte. Seja forte. Ela continua gritando me cobrando uma resposta, mas eu não consigo dizer nada.  Forte. Força. Ela me bate como quem espera acordar alguém de um desmaio. Forte. Seja forte. Seguro ela com toda a força para que ela se acalme e pare de gritar. Ela não para. Força. Força, mais força. Corro pra cozinha pra tentar fugir dos meus pensamentos e quando dou por mim tenho uma faca na mão. E ela ainda não parou. Força. Força. Foda-se! Cala a boca! Uma, duas, três e silêncio. Quatro, cinco, seis. Força. Sete, oito. “Caralho, o que eu tô fazendo?”. MEU DEUS. O QUE EU FIZ? Sangue. Muito sangue. Me desespero. Corro. Na sala meus filhos me olham atônitos. O que eu fiz? O que eu vou fazer? Chega! Já deu errado. Agora isso precisa acabar. Que Deus (se houver algum) me perdoe. A faca ensanguentada corta a tela que separa o apartamento da queda de 18 andares. Primeiro o filho doente. “Venha com papai. Vai ficar tudo bem.” Ele esperneia quando vê o que preciso fazer. Preciso. Dou um beijo em sua testa e ele cai como um passarinho que não sabe voar. Não olho pra baixo. O mais velho corre tentando escapar do destino imposto pela minha incapacidade de sustenta-lo. Não posso. Força. Agarro ele e digo que o amo muito e que por mais que ele não entenda, logo mais estaremos juntos e eu vou explicar tudo direito. Que assim seja. Ele cai olhando pra mim. É insuportável. Só resta a mim. Preciso explicar o que aconteceu pra alguém. Uma carta.

“Me preocupa muito deixar minha família na mão. Sempre coloquei eles à frente de tudo. Mas está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante. Não vamos ter mais renda e não vou ter como sustentar a família. Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força, por deixar todos na mão. Mas melhor acabar com tudo isso logo e evitar o sofrimento de todos. Ainda não conseguimos contratar o novo plano de saúde. (…) Com o histórico médico de Lais e de Arthur, será que aprovam? Será que não vai ficar super caro?”. ***

Não consigo mais. Na tevê, a presidente também está sendo julgada. “O que eu fiz?” Ela deve estar pensando. Eu também. Antes de pular ao encontro dos meus meninos, rezo para que ela não seja demitida também.

*** Trecho retirado da carta de suicídio de Nabor Coutinho Oliveira Junior, suspeito de ter assassinado a família no Rio de Janeiro.

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