Eles falam paz, mas plantam a Guerra

Uma criança acorda todos os dias com os PM’s invadindo a sua casa e matando o seu pai. Ao despertar percebe que foi só um sonho, uma lembrança daquela noite sombria.

No início de todo o processo de impeachment o senhor Luiz Inácio Lula da Silva aparecia cada vez mais na mídia, o país estava cada vez mais afundado em problemas econômicos. A Laja Jato estava a cada minuto pipocando com novas denúncias e processos que de uma maneira ou outra respingavam na cúpula do PT.  De repente vieram os primeiros vazamentos, áudios de delações e ligações. Lembro-me perfeitamente da noite em que estava voltando para casa de carona no carro de um amigo enquanto ouvia na rádio os áudios dos grampos entre o ex-presidente Lula e a presidente Dilma.

Lembro-me do momento em que me encontrava ainda em dúvida sobre qual deveria ser o rumo tomado no Congresso. Lembro-me de ter estado em cima do muro. Recordo ainda de uma longa conversa com um amigo economista, que veio de um lugar muito semelhante que eu, da periferia. Esse amigo, no momento doutorando em economia fora do país, se deu o trabalho de fazer um baita artigo me explicando os motivos que o levavam a acreditar que tudo que estava acontecendo fazia parte de um plano, com o objetivo maior de tirar os direitos das minorias e dos trabalhadores. Com argumentos solidificados na história, esse amigo me alertava para o fato de que tudo que estava acontecendo era apenas uma repetição histórica. Nesse momento resolvi parar de apenas tentar argumentar com base em matérias de jornais os fatos que aconteciam no país. Passei a observar as fases da operação Laja Jato, os vazamentos, as declarações e quem e como noticiava tudo isso. Fiz mais, para entender o presente busquei a resposta no passado, li algumas obras e me impressionei.

Não se trata aqui de defender esse discurso de ódio de empregado vs patrão, muito pelo contrário. Se trata de defender um discurso que está pautado na igualdade de direitos e principalmente de oportunidades. Essa mesma galera que fala que bandido bom é bandido morto nunca leu O Abusado, de Caco Barcelos e acha que entende o dia-a-dia de um favelado – não que quem venha a ler necessariamente vá entender. Obviamente eles também nunca entraram numa favela. Essa turma nunca se deu o trabalho de ler O Dono do Morro de Misha Glenny para entender que nem todo traficante é viciado, ou entrou nessa vida por opção. Para entender que pra droga e a arma chegar no morro, algum colega de colarinho branco lucrou com isso. E vem vocês me falar que o que afundou o Brasil foi o PT, me poupe.

Sabe qual foi o real motivo que tirou a Dilma do poder? Foi não manter uma boa relação com a imprensa, pecado esse também cometido por Collor. Outro “erro” de Dilma foi pensar nas classes sociais mais pobres, “erro” cometido por Jango. Você acha que a Dilma caiu por que o PT afundou o Brasil? Mas você já parou pra pensar que o Brasil afundou a partir do momento em que o Congresso não deixou passar mais nenhum projeto petista? A jogada é simples, barramos os projetos, o país afunda, o povo fica puto, inventamos uma desculpa e tomamos o poder. Se o motivo do impedimento foi de fato um crime de responsabilidade por que diabos a presidenta ainda goza de seus direitos políticos?

Sempre que um governo de esquerda, ou que aparentou ter apatia por tal, assumiu o poder foi interrompido. É simples, basta ler os livros de história!, não é difícil, juro. É só ler.  Aí o povo vai pras ruas – assim como a direita fez – o povo quer o afastamento do atual presidente no mesmo dia em que ele assume tal posto – assim como a direita fez na reeleição de Dilma – e os caras vem dizer que a esquerda tem que deixar o Temer governar? De novo essa história de que os seus direitos não são os nossos direitos?

A verdade é que o povo está cansado dessa ladainha de faça o que eu mando não faça o que eu faço. O povo está cansado de ver suas esperanças serem roubadas. O povo está cansado de ver a mídia massacrando toda e qualquer oportunidade de melhora nas comunidades. Está na história, busquem e vejam quando a imprensa falou pela primeira vez do Morro da Santa Marta no Rio de Janeiro. Olhe pra história e veja quando os escravos foram libertados. Olhe e veja que o povo, os negros, as minorias só tem vez na mídia, só tem vez no mundo quando eles atrapalham ou quando eles podem ser úteis. O morro da Santa Marta apareceu quando teve uma grande guerra que atrapalhou a vida dos mauricinhos das regiões vizinhas. E os negros foram libertados quando o mercado precisava de novos consumidores. Não seja burro e nem hipócrita, pois o povo já cansou de ser capacho.

 Um vídeo mostra nas manifestações dessa semana em Caxias do Sul, policiais espancando um senhor negro de 51 anos, o senhor cai no chão e os policiais continuam o espancamento, o jovem de 21 anos vendo seu pai naquela situação dá um chute em um policial e é indiciado por tentativa de homicídio. A PM diz que vai apurar o caso pra ver se os policiais não cometeram excessos. O vídeo mostra os espancamentos por parte dos policiais. O garoto está preso e só ele está.

Eu estava no massacre dos professores no Centro Cívico em Curitiba e até o momento o mandante segue impune. A pergunta que fica é: Até quando? Até quando quem ataca a população vai seguir impune e quem defende a classe operária vai sofrer represálias? Quantos Jangos terão que cair para que o povo possa ter um pedaço de terra?

Tenho sido muito questionado quanto ao fato do PT isso, a Dilma aquilo. Mas tem que ser muito ignorante pra não entender que não se trata da Dilma, não se trata de PT, se trata do favelado, do negro, dos gays e de toda a classe operária estar cansada de ver seus direitos usurpados por um Estado branco, rico e preconceituoso. Não se trata apenas do Lula ser ou não perseguido pelo Moro, se trata do jovem que defende o pai e é preso, enquanto PM’s espancam sem punição. Se trata do sistema, se trata da desigualdade, se trata da revolta de não aguentar mais ser massacrado todos os dias por um chefe explorador que só vê lucro. E mais uma vez reitero, não se trata de funcionário vs patrão, se trata de explorados vs exploradores.

Deixem nossos representantes em paz, deixem nosso voto valer alguma coisa, deixem nossas vozes serem ouvidas, deixem nossos negros soltos, deixem nossas crianças irem para a escola, deixem nossas mães montarem suas cooperativas, deixem nossos pais pintarem quadros ao invés de dirigir os seus carros. Quando conquistarmos tudo isso o que pediremos Estado, é que deixe essa criança dormir sossegada.

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