Não me dê conselhos, me dê tequila

“Vem cá, eu vou te dar um conselho”, pronto, já consigo começar a cavar minha cova e enfiar a cabeça pra tentar não ouvir tudo de novo. Repetidamente. Eu até decorei a ordem das palavras. Quando a boca seca, quando as lágrimas caem pesadas, quando a dor é tanta que você só consegue repetir e repetir e falar e falar, sangrar até os ossos secarem e ficarem mais brancos do que nunca, te olham, te colocam a mão no ombro e soltam o lindo conselho “quem perdeu não foi você”. Seja homem, seja mulher, seja adolescente descobrindo que beijos não são contratos, todo mundo já ouviu- ou vai ouvir- o bendito do conselho que diz que quem perdeu foi o lado de lá, não nós. Mas deixa eu te contar um segredo: Não funciona. E a tequila também não, mas alivia.

Porque na hora que a ferida está na gente, é impossível pensar que quem perdeu não fomos nós. Ninguém perde um grande amor com ares de alívio, é trocado achando que saiu por cima da situação, é quase humanamente impossível e só acontece em casos extremos quando você já lutou e se destruiu demais. Então, não. Não vem me dizer que quem perdeu foi fulano (a) quando é a minha cama que ficou vazia, quando é o meu banco do passageiro que não abriga mais ninguém. Não vem dizer que eu sou melhor, que eu sou superior, quando eu nem consigo sair da cama e fazer um café digno pra curar a ressaca, quando eu tô usando dez vezes mais base pra conseguir trabalhar sem olhares curiosos nas minhas olheiras e quando eu guardei uma camisa no fundo do armário e finjo que ela não está lá. Não vem me dizer das minhas qualidades se elas não pareceram suficientes para que ficassem ao meu lado. Daí o povo diz que vai passar, não se preocupe… E a gente sabe. Já passou por tantas, não foi? Já enfiou o pé na jaca, já ligou de madrugada, bebeu com o celular na mão e mandou mensagem de arrependimento. Já mudou de cidade, de número e cortou o cabelo. Acordou sem entender se tinha tomado banho ou aquilo é suor do porre. Pensa que eu não sei? Pensa que dá pra mentir pro resto da vida que superou? Não dá. Ninguém consegue. Uma hora cê coloca os ombros mais baixos, lá no meio do banho e chora. Vê o garçom ao seu lado, abraça ele e chora. Chama os amigos mais próximos, sem medo, chora. Chora porque só tem isso pra fazer, só tem preces para fazer, só tem dor pra sentir. Não tem jeito.

E quando batem no nosso ombro dizendo que “calma, você é maior do que tudo isso“, eu não sei se é só comigo, mas a vontade é de dar um soco em algo bem duro e quebrar um membro, porque eu não quero ser maior do que nada disso. Só quero poder me sentir bem minúscula e não ser julgada por isso. Não, eu não tô aqui reclamando porque eu acho que meus diplomas, meus idiomas e as drenagens linfáticas não são suficientes. Eu sei que meu sorriso é lindo, eu investi nesse clareamento, invisto no cabelo e na pele, eu continuo me maquiando igual o tutorial da Salazar. Mas sabe o que é? Agora, nesse momento, só me acolhe. Concorda comigo que tá tudo uma merda, concorda que eu tenho o direito de me “emputecer” porque tô sentindo um ódio abissal e querendo atropelar alguém. Bebe comigo, ouve Marília Mendonça e chora sorrindo, porque é o que eu preciso fazer agora. Não, não são as outras bocas, não serão outros corpos. A gente passou dessa idade, dessa fase e dessas ilusões. O negócio é que a ferida agora precisa ser sentida, doída, diluída na tequila e fazer sua cicatriz. Não tem jeito, eu só vou entender que eu mereço mais depois que cansar de sofrer, e a gente casa. Vai por mim, cansa. Eu sei porque já cansei no passado e tô aqui agora pronta pra cansar de novo. Mas talvez, só talvez, essa não seja a hora de levantar a cabeça e me sentir dona da cocada toda, não tô afim. Agora, nesse instante, eu talvez não queira saber das minhas qualidades, eu sei do papo de amor próprio, eu sei de todos esses conselhos porque eu fui autora da maioria deles. Mas eu não tô no ritmo, não tô afinada pra isso. Eu quero só conseguir não ser nobre, em paz.

Agora, só agora, eu preciso só me sentir mal, revoltada e crua. Dura. Seca. Por cinco minutos eu não quero nenhuma qualidade. Depois prometo, sigo teu conselho, acordo pra vida com um sorrisão, mas agora, por favor, engole o tal do conselho e coloca outra dose. Não dá pra viver uma vida de tapinhas nas costas pra sempre. E nem de tequila.

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