A verdade é que você não sabe ser feliz

Quão absurdo é alguém nos amar de imediato, sem medo, de maneira honesta e bonita? Totalmente. Não existe isso de amor à primeira vista, alguém te conhecer e em uma semana já fazer falta nas conversas, nas horas de filme e frio, chuva, papos de sacada tomando um vinho bom. Porque nós enfiamos na cabeça que amor dói e não existe assim, sem o bom senso de que tudo ao nosso redor precisa de explicação e encaixar nas tabelas tempo-bom senso. Pessoas se vão e de maneira alguma beleza, bom humor, inteligência e dotes culinários podem estar na mesma pessoa. Um dente podre, um hábito socialmente inaceitável, não ligar no dia seguinte, deixar no vácuo, nos fazer de trouxa. Algum item do pacote babaquice tem que vir junto, pelo menos não gostar de tomar banho. Alguma coisa tem que ter. E isso, meus caros, é a coisa mais triste que se pode concluir nessa vida.

Eu sei, porque eu sou essa pessoa que busca no perfeito uma rachadura. Eu preciso. Procuro o problema até o problema me achar. Talvez seja a posição política, a preferência por café com leite ou sem leite, com açúcar ou purinho. Tem que ter sim uma lacuna, um defeito abissal que vai me fazer desistir. Um segredo, tu é psicopata? Vai botar fogo no meu carro se eu não te quiser mais? Fala, pode falar que eu tô aqui ouvindo. Daí cê vai cavando, vai tirando as camadas, vai tentando ver mais de perto e… Não. Não tem. A pessoa é boa mesmo. Te entende, te ajeita, arruma seus armários de panelas e sabe dobrar as roupas saídas do varal. Fala desde programas lixo na televisão aberta até as regras sociais que regem as maiores empresas. Se banca, se cuida, se exercita e come direito. Paga à vista, não tá no SERASA. Compra remédio pra sua garganta inflamada e cozinha, cozinha muito bem, sorri leve, deixa rastro de perfume gostoso no corredor quando sai. Não suja a pia. Não molha todo o banheiro depois do banho, não comete erros de grafia e entende de filosofia. Assusta, nos desespera, porque você se vê com a pele intacta e querendo mais, querendo um pouco mais disso tudo o tempo todo- se possível. E cadê o bendito do problema? Cadê a parte onde te olham no olho e te arrancam um pedaço? Como assim alguém chega na sua vida e não dói, nem machuca, não causa danos só para nos dar o gostinho de poder nos curar depois? Não rende textão nas redes sociais, motivos pro porre de sábado à noite. Só chega no horário marcado, pede licença e está tudo certo como se fosse nascido ali, entre as bagunças da nossa mente ansiosa e corrosiva? É isso mesmo?

Então eu sufoco. Parece que o ar está limpo demais e eu tenho vontade de enfiar a boca num cano de escape bem sujo e bem usado de um ônibus que cruze os rios mais poluídos de São Paulo. Eu tenho vontade de apertar a pulseira do relógio para deixar uma marca, procuro roxos nos braços, hematomas nos olhos. Nada. A pele está limpa, o coração batendo normal, a louça lavada. Que desespero. Que pânico. Cadê o problema? Onde foi parar a porcaria do problema? Alguém avisa que eu preciso disso pra me sentir normal, porque não é normal ser feliz dessa maneira, não pode ser acessível uma felicidade assim. Me atropelo, disco o número, desabafo na caixa postal porque não tenho coragem de assumir que o problema não está no seu sorriso branquinho e pele macia. Preciso de um tempo, preciso me colocar no lugar, preciso entender tudo isso. Não, não precisa trazer o jantar e nem me buscar depois do expediente. Não. Sabe que é? É que eu achei o problema. E ele esteve o tempo todo no reflexo do espelho, ouvindo nas conversas de bares por aí que o amor não anda compensando no mercado, andou fazendo más escolhas, acreditando em sorriso barato e descobrindo da pior maneira que as pessoas vão embora sem pensar duas vezes e que quando tudo tá dando certo de alguma maneira, algum problema tem. Algum problema vem.

Então, se não for pedir muito, eu tô precisando de uns dias. Talvez meses. Quando eu achar um problema, uma rachadura, um pedaço faltando, prometo que volto. Agora, não estou conseguindo assimilar tanta felicidade assim. Agora, nesse instante, eu tenho um problema bem grave.

 

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