Eu não faço ideia do que estou fazendo da minha vida. Nem você

Tem uma parte nessa coisa chamada de vida que te atropela feito caminhão desgovernado em avenida barulhenta. Não dá tempo de avisar, não tem barulho de freio, é só o baque e fim. Tudo preto, você tá rodando e não sabe como foi parar ali. Não tem uma dor exata dessas que você aponta com o dedo e diz “aqui, doutor”, é só um choque, entende o que eu quero dizer? É aquela manhã que você sai da cama e não sabe o que fazer, se toma um café primeiro ou decide de uma vez sobre seu destino. Não sabe ou não consegue aceitar que precisa fazer algo sobre sua vida, tanto faz, o sentido é o mesmo quando o assunto é o universo decidindo tirar o teu chão de alguma maneira. Só de pensar, dói. Eu sei, é como se o cérebro tivesse a obrigação de reagir e dar uma resposta rápida, socialmente aceitável e prática, mas não consegue. Tem dias- nesses dias tão pesados- que eu consigo ouvir engrenagens estalando enquanto eu me movimento. É terrível, porque ninguém está livre desse colapso emocional e até o mais forte dos seres passa por isso- eu sei, eu já vi.

Eu não vou saber te dizer a causa, podem ser os astros, a sua lua que está na casa errada, pode ser um castigo divino ou alguma coisa que você andou fazendo e agora veio contra você como karma. Pode ser só o destino rindo da gente ao nos ver feito gente que sai do ônibus e não sabe se vai para a direita, esquerda ou segue reto. Mas acho que a causa dessa merda toda não importa muito quando a consequência é tão avassaladora, quando o soco é tão seco e certo. Foi o emprego que não vingou, o amor que não durou, o amigo que não era nada do que você pensava. Pode ser as contas batendo na porta, a água que foi cortada. A vida que você escolheu e… olha só, não tô feliz! É tudo. Não é nada. Não sei o que andou acontecendo, mas sei que abrir os olhos e sentir que tudo no mundo nos parece injusto, é um peso abissal. A dor, a fome, o amor não correspondido, a vida que nos trai e nos abandona. Tudo. A cor das ciclovias nas ruas, me parecem injustas. Eu estico o braço e ninguém me acolhe, eu grito até sangrar a garganta e ninguém me ouve. É a dúvida entre a cor da camisa e se eu posso perdoar meus pecados, eu trinco, engasgo. Morri na padaria pedindo um pingado, ninguém viu. Daí eu começo a me perguntar, será que eu tenho mesmo que fazer alguma coisa, assim, de cara e dar orgulho para os outros? Não.

Eu posso esperar, sentar numa cadeira e ficar vazia por um tempo até que esse mesmo tempo faça alguma coisa sozinho e eu consiga me mover sem tantas dores. Posso me revoltar, posso perdoar e seguir, posso me apegar aos problemas e me depredar até o último fio de cabelo, posso fazer o papel dos miseráveis e posso sair por cima da situação se eu quiser. Posso, porque sou livre. Posso decepcionar as pessoas que estão esperando mais de mim, posso mostrar a minha versão mais frágil, mais simples, mais fraca e dever na praça e no boteco, sem vergonha, porque eu sou livre. Livre pra ser tudo o que você espera, mas mais livre ainda para ser o que eu quiser. Livre pra descobrir que ninguém é o que eu espero e livre para conseguir conviver com todas essas escolhas e ainda assim me olhar no espelho e ter orgulho de quem eu sou. Esse tal caminhão que vem, assola e derruba, só nos serve para mostrar que nada nessa vida é um plano linear e constante. Esses acidentes, essas revelações estrondosas nos alertam e nos dão chances novas de mudar de cidade, de amor, de vida e situação. Nos mostram as nossas capacidades e escancaram o que precisa sair da máscara perfeita e plácida que criamos sobre as pessoas, sobre as coisas e sobre nós mesmo, que não somos nem de longe seres simples.

Não me chame de amante das crises, não. Por favor. Mas sou grata por elas, por cada pessoa que me decepcionou, por cada amor que não durou, por cada emprego que não deu certo e por cada tropeço que ainda terei que passar se me for necessário. Aprendi, entre feridas e desgastes, a valorizar as despedidas precoces, as partidas necessárias e até mesmo a tão injusta e pesada morte, esta, que em todos os âmbitos nos explica que tudo no universo tem um ciclo de ascenção e queda, começo e fim. Eu só posso te dizer, caro leitor e amigo, que cada um desses acidentes pode ser realmente a pior fase de todas, mas acredite em mim, quem fica no final de tudo isso são sempre as pessoas que realmente se dispuseram a nos amar em qualquer versão e situação. E quem nós nos tornamos ao final de tudo isso, deverá ser o tipo de pessoa que nós teríamos orgulho de conhecer nessa vida e que terá muito para contar lá na frente.

Acredite em mim, tudo isso ainda vai passar, mas enquanto não passar: Respire. Sem pressa.

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