Eu sinto muito por não conseguir sentir mais nada

Você acha que o amor é tipo uma caixa bem grande, que carrega uma quantidade “xis” de sentimentos e aos poucos- conforme você os vai distribuindo- essa quantidade diminui e um dia se esvai? Eu sei, coisa de louco pensar isso. Mas será que isso pode acontecer? Um dia você simplesmente não consegue mais. Não consegue dar mais do que isso que você tem agora- seja lá quanto de sentimento você tenha agora. Não vai para frente, não consegue voltar, é estático e duro e seco. Como se tentar mais do que isso fosse impossível e você não consegue se reconhecer. Aquele momento em que você olha para alguém e até pensa que seria muito justo dar o maior dos sentimentos, mas simplesmente não consegue. Se esforça, rasga a pele, chega perder um membro ou dois. Nada. A foto na identidade não corresponde ao reflexo no espelho, você não sabe nada sobre si. É um ser cambaleante, solitário e sem identidade no meio de uma avenida empoeirada.

Onde foi parar aquela luz toda de atender ao telefone, comprar uma roupa nova, se vestir com a melhor roupa? Sumiu? Morreu? Se foi com a mesma vontade de manter o apartamento limpo e organizado? Se foi junto da vontade de comer mais salada e menos carboidrato? Você ainda está vivo, afinal? Acabou mesmo? Nenhuma gota? Acabou, acabou mesmo. Eu não tenho capacidade de amar além disso, além desse corpo e desse copo, dessa dose, dessa última mensagem de desespero. Porque houve um dia, num par de olhos que tem pequenas linhas de expressão quando sorri exagerado, que eu dei tudo dentro de mim. Tudo. Eu fiz uma avenida extensa de um sentimento puro, claro, intenso e que dava inveja nas tias mais velhas que nunca viveram isso. Era um tapete lindo, desses que você precisa tirar os sapatos para não estragar de vez e acabou virando em retalhos. Não se oferece o que sobrou nem para o ser mais infeliz e cruel do mundo. E eu esgotei. Em ares de cansaço, saí recolhendo esses pedaços todos e percebi daquela maneira triste que simplesmente não consigo mais. Não mais. Não vai. Eu posso até admirar e querer bem alguém do fundo da minha alma, mas aquilo que eu sei que me é cobrado quando me dizem que eu não abro a porta, não peço socorro, isso eu já não sei mais oferecer.

Porque um dia- e eu sei o quanto isso é errado da minha parte por não me desprender- eu senti e permiti tudo isso. Eu abri a porta, cedi o lado e a vez e até deixei as brigas saírem ganhas só para ter um bocado de paz. Eu fiz esse papel, eu escolhi o nome dos filhos e planejei as viagens. E então, era eu, sozinha em um bar qualquer pedindo mais uma dose e explicando ao garçom que não, não iria chegar ninguém, eu beberia sozinha. E agora, quando me pedem tudo isso de novo eu olho para a minha tal caixa e o vento que sai dela é tão incômodo quanto o silêncio. É uma dor ensurdecedora, eu preciso fechar essa tampa, essa porta ou seja lá o que for, o mais rápido possível para que ninguém queira me levar imediatamente ao médico. Parece sim uma doença. Parece mesmo uma debilidade emocional que precisa dos tratamentos mais fortes. Eu confesso, os comprimidos e os questionamentos. Me tornei a pior das companhias depois da terceira- ou décima- cerveja. Talvez um dia passe, talvez não. Talvez eu tenha secado mesmo e perdido essa tal capacidade tão bonita que já foi minha característica mais forte. Não lembro mais quando foi a última vez que eu senti o coração dessa maneira que eu sei que existe, mas me parece tão distante agora. Tão utópico ou principiante. Sabe, eu nem me lembro mais direito dos olhos com os cantos e as marcas de expressão, é sério. Não me arrependo, afinal. A conclusão e possível conselho que eu dou, é que não me arrependo um centímetro do que vivi e de ter dado o meu “tudo” ao amor errado. Cresci, aprendi, é o que as pessoas que se permitem arriscar fazem: Elas arriscam.

Talvez até nessa parte de arrependimento e guardar memórias eu já tenha esgotado. É um preço alto que se paga quando sentimos demais. Quando sentimos tanto. Quando chegamos ao ponto de simplesmente, sentir muito.

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