Volta

Eu tô voltando pra casa. Já mandei mensagem pra família pedindo para deixar a porta aberta e se rolar um cafezinho na mesa- pretinho mesmo, nem açúcar precisa deixar- eu agradeço. Pode cobrir com o paninho de prato branco com umas pinturas de pêssego, daqueles que a gente guarda só pra colocar sobre a comida que fica esperando visita ou pessoas que voltam pra casa. Eu adoro aquilo de uma maneira que cê nem imagina. Tô voltando pro ninho porque eu acho que depois de tanto tempo descobrindo quem eu sou, me conhecendo de verdade, lavando roupa e perdendo os pares de meia na máquina, descobri que eu não sou ninguém se não consigo olhar os traços de Dona Maria- vovó– pela manhã, me dizendo que eu preciso viajar mais e passar um tempo fora. Foi assim que eu saí de casa na última vez e pelo jeito vai ser assim que eu sairei nas próximas- sim, haverão próximas. E eu pretendo que seja assim todas as vezes que eu decidir voltar.

Sabe, é que existe uma parcela de nós que precisa olhar nas paredes e ter memórias reconhecíveis com mais de 12 meses; e essa minha parcela vem gritando de saudade. Eu saí de casa porque precisava de um tempo olhando pra dentro, para as feridas e os demônios, até aprender de uma vez por todas a conviver com isso tudo e enfim conseguir ter mais afinidade comigo. Eu precisei fazer as minhas histórias, aprender a andar de metrô e pedir informação para os carecas- minha prima disse que eles são mais confiáveis e detalhistas. Precisei perdoar uns pecados, tomar umas decisões erradas, não ter como pedir socorro para poder enfim me socorrer. Arriscar. E eu sei que eu terei que fazer isso mais milhares de vezes. Mas agora chega de ter hora marcada pra embarcar e saber decor a plataforma, chega de pedir desculpas porque não deu tempo dessa vez de ver as tias, os melhores amigos e abraçar o priminho novo que nasceu. Chega de entrar nesse apartamento que eu adoro, numa capital gigantesca que tem cores apaixonantes e cheia de gente que nos apaixona, mas ainda assim me sentir simplesmente só. Chega, eu cansei mesmo de ter que me obrigar a dizer “até logo” para pessoas que eu quero ver todos os dias. Sabe, na porta do meu quarto- na casa da vó- tem marcas no batente mostrando dos 8 aos 14 anos a minha fase de crescimento com marcas feitas a lápis. Eu preciso ver isso todas as manhãs de novo e lembrar que eu tenho muito para crescer ainda, me orgulhar do quanto já cresci até agora e claro, agradecer imensamente por tudo isso. Preciso ouvir a hora do café sendo anunciada, sentir o cheiro da chuva quando molha a horta lá no fundo do quintal e ver meu cachorro. Por favor, eu preciso passar mais tempo com o meu cachorro e com o meu coelho, mesmo. Pegar o carro e parar 4h da manhã no drive só pra pedir um sanduíche de hambúrguer e cheddar, comer e sorrir porque tá chovendo. Eu adoro a chuva, mesmo.

Não, não tô desistindo do peso de morar sozinha, pagar as contas e passar aspirador na casa duas vezes por semana porque o meu cabelo é um assunto sério na hora de cair. Não, eu juro, eu adoro morar sozinha e fazer tudo isso! E amei ver as pessoas que permaneceram unidas a mim mesmo com a distância. Adorei cada um que pegou um ônibus, um avião, uma balsa e um camelo para poder ficar comigo uns dias, que usaram os meus utensílios de cozinha e deram sentido útil para todas as panelas e refratários. Um final de semana que tenha sido compartilhado comigo, significou muito, é sério. Os shows, os sonhos, os projetos todos, eu tô inflada de tanta coisa bonita. Eu sou grata por cada um que comeu da minha comida de solteira e tomou o meu café da manhã de dia de sábado, que tem ovos e torradas no cardápio. Amei meus dias sozinha, fazendo faxina e pertubando os porteiros pedindo ajuda pra levar as compras no elevador. Mas eu preciso desse calor que emana do que é meu, do que é essencialmente parte de mim e que anda me acenando e me fazendo uma puta falta. Eu tô voltando pra casa, avisa os vizinhos que pediam para eu baixar o volume da televisão de madrugada e não buzinar quando chegava da balada. Avisa o vendedor de picolé que eu tô voltando, ele precisa voltar a guardar os de limão para mim. O motorista do ônibus que manda um aceno quando passa ali no portão, avisa a dona da quitanda que eu vou voltar a comprar ovos, o dono do bar de esquina na avenida principal que quando me vê me dá um abraço apertado e diz que estava com saudades e avisa todo mundo, avisa cada um que nesse último ano repetiu a mesma palavra, por mensagem, ligação ou num abaraço: Volta. Diz que eu tô voltando. Que eu tô chegando de novo. Que eu tô fazendo as malas aos poucos e vendo o que fazer com o microondas que ainda tá novinho, quer comprar?

Avisa, que eu tô retornando pro ninho e pronta para tudo de novo. Para tudo que vier novo. Para tudo o que quiser ser novo. Mas avisa, principalmente, que de maneira alguma eu voltei igual.

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