Um brinde à cada uma das suas mentiras

Nós compusemos um círculo fechado de contradições que durou anos. Eu dizia não, fazia sim. Você dizia adeus, voltava na semana seguinte como quem pede perdão por achar mesmo que conseguiria partir. Eu ainda consigo falar disso repetidamente em todos os bares, durante todos os meus porres e para todos os garçons, bêbados e taxistas, sem me culpar. Eu me torturo dessa maneira porque eu preciso achar um centímetro de verdade em você ou em algum momento do passado. Você me deve isso, a verdade. Porque quando eu tô caindo, nenhum pouco de verdade me segura as mãos. Porque quando eu vejo o seu nome sendo pronunciado- nem que seja por um estranho na rua- eu busco um pouco de verdade nisso também. Eu quero ver teus documentos, eu preciso te colocar no sistema para descobrir se você é você mesmo, eu quero sua digital, sua saliva, eu vou fazer exames e mais exames e mais pesquisas, porque eu preciso de uma verdade para me sanar as ansiedades. Eu preciso disso para conseguir me reconhecer.

Porque quando abro meus olhos no meio da noite a pergunta fica vagando na minha cabeça: Eu vivi tudo sozinha? Mesmo? Eu fico me perguntando quem me beijou nas noites frias, quem segurou a minha mão nos momentos de dúvida, quem atendia o celular nas madrugadas insones, quem me ensinou tanto, afinal, se não foi você? Porque quando me perguntam como você está, eu começo a me perguntar quem você é. Começo a me perguntar quem estacionava na minha garagem depois das 21h, quem ficava falando o tempo todo para eu trocar de carro e pegar uma direção hidráulica, quem ficava me incentivando aos exercícios físicos porque eu preciso de uma vida saudável, afinal, quem?  Porque quando você diz que continua sendo a mesma pessoa, só que agora a vida é diferente, eu já me perdi na primeira palavra da frase e tô conferindo se o seu “bom dia” é de verdade mesmo ou se já anoiteceu e até nisso você tá me enganando. Eu tô perdida. Eu confesso, eu fiquei totalmente perdida no que eu quero ou não, no que eu sonho ou não, em quem eu sou de verdade ou não. Porque por muito tempo a sua verdade foi a minha também e agora eu comecei aquele processo exaustivo de encontrar essas respostas todas. Eu não consigo achar o caminho de casa se você não me disser uma verdade agora e registrar em algum veículo público para que as pessoas confirmem isso. Eu não consigo mais assinar o meu nome, falar meu signo ou a data de nascimento. Olha só, eu nem acredito mesmo em signos! Eu saí vendo mapa astral e buscando respostas em astros pra entender a razão, a causa, a consequência de tantas mentiras assim. Então, por favor, uma verdade. Só uma. Uma pequena e efusiva verdade, pode ser sobre a cor dos teus olhos, são lentes, não são?

Daí cê me diz que agora não é o momento, um dia você me conta os detalhes todos e eu entendo. Me diz que foi engano da sua parte, da minha parte e da parte de quem está de fora dizendo que você não mereceu a minha nudez. Tenta se colocar no meu lugar para amenizar o fato de que nem a sua dor é verdade. Só o que eu vejo é um bocado de indiferença, compaixão momentânea, uma coisa que não enche um pote, não dá um palmo de satisfação. Eu vejo a minha dor pedindo por um afago teu no meu ego. Olha quão baixo eu cheguei agora, eu imploro que você repare no meu cabelo, no meu sorriso, num detalhe qualquer e solte um elogio. Eu sou um mendigo de você, eu preciso de um fio de cabelo, um rastro de cheiro, só pra eu me sentir saciada nesse vício. Você faz questão de me manter num foco egoísta da sua parte, que te alimenta e sustenta suas vaidades e eu deixo. Eu sei de tudo isso e deixo. Daí eu já estou querendo me despir inteira e te pedindo pra morar em mim, ficar comigo, fazer do meu corpo a sua casa, das minhas verdades as suas verdades e as mentiras todas eu visto uma a uma feito roupa costurada para mim. Vira minha carne, minha pele, entra nos fios do meu cabelo, se abriga no vão das minhas unhas e me deixa sentir o gosto de tudo o que você carrega. Por favor. Me deixa provar até suas mentiras. Eu tô aqui implorando que você me veja. Eu não tenho pulso, não tenho vocabulário, o ar nos pulmões não oxigena nem metade das células. Eu não tenho uma verdade sequer que te mantenha aqui, que me mantenha aqui, que seja real.

Eu digo não, enquanto faço sim.

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