Gorda, chata, mãe e sozinha

 

O bebê chorava em seu colo e a pia atolada de louça começava a lançar um cheiro que a incomodava. Não era apenas o fedor do jantar de ontem que exalava forte que dava essa vontade de chorar até secar. Não era o calor que se unia ao aroma ruim da louça e ia entrando até nas cortinas da copa e ela sabia que não conseguiria tirar aquele cheiro dos cômodos abafados de maneira alguma. Não era o choro manhoso da filha no colo, não, a filha era a melhor coisa dentro de tudo isso. Nem a roupa na máquina, nem a casa que precisava de um toque melhor de arrumação. O que feria até o canto mais escondido dos ossos era a solidão. Os pratos sujos mostravam uma companhia no jantar da noite anterior, mas não amenizava a solidão. A cama tinha os lençóis usados por dois, mas ela era só. Ao olhar em sua volta ela percebeu que de uma hora para a outra o conto de fadas morreu e ela ficou sozinha, tentando achar a saída, correndo em círculos e procurando o amor que era tão evidente e agora não existia mais. Agora, no momento mais importante quando havia um outro ser em seus braços que necessitava de um afago, uma palavra de carinho, um toque mais suave, parece que aquele amor todo tinha cheiro de cigarro, cerveja ruim e indiferença.

Lembrou de quando descobriu a gravidez e toda a expectativa de apoio que veio junto do resultado “positivo” no teste. Pensou em como planejou viver aquela gestação com a companhia da pessoa amada ao lado, mas só recebeu críticas de como seu corpo, humor e maneira de pensar estavam mudando. Não ouviu a beleza que era gerar, não ouviu sobre como a maternidade a iria completar, pouco recebeu amor quando o desespero dessa nova fase começou a surgir. O nome, ahhhh o momento de escolher o nome! Enquanto ela via os significados, consultava os astros e conversava com as amigas, ele só sabia segurar a sua cerveja e fumar o seu cigarro compulsivamente enquanto reclamava do mundo ao seu redor e de como sua mulher tinha ficado chata, faminta e carente. Mas essa moça é das fortes, não deixou isso destruir seu momento. Ela ergueu a cabeça e foi até o final. Semana após semana, vendo seu maior tesouro crescer em seu ventre, ela enfrentou cada etapa sozinha e fiel ao que acreditava. “O final feliz é a gente quem faz” repetia para si. E ela foi fazendo suas contas, curtindo as roupinhas novas, os mimos que vinham de todos, menos dele. Foi ouvindo as críticas que ocuparam o lugar dos primeiros chamegos de quando se conheceram. Foi tentando achar um pouco de amor pra se agarrar e quando viu que não adiantava mais, foi unindo suas forças até que se tornasse exatamente o que sua filha precisava. Agora era pela bebê, a sua felicidade poderia ser secundária. Essa criança há de se orgulhar da mãe que tem um dia, e como irá! Sozinha, com a louça esperando para ser lavada, sem o apoio do homem que ama, sem conseguir juntar as coisas e voltar para os braços da mãe, a moça foi deixando os cabelos de lado, se preocupando menos com as próprias roupas e unhas e pele e maquiagem- afinal, nem dava tempo de se olhar no espelho mesmo. Foi dando mais motivos para sua aparência ser alvo das chacotas, das piadas de mal gosto, dos elogios ausentes. Ele não deixou sua vida de lado, amigos e baladas sempre em dia, mas em casa… Solidão. Era só o que ela sentia. Essa é sua realidade agora, onde ouve o que não merece, enfrenta o que não quer, mas segura a filha nos braços e a vê crescer saudável. Isso compensa, ela pensa. Calma, o final feliz. Espera, tem um final feliz. Feliz.

A porta abre, chegou. A louça de ontem aumentou, tem a louça de hoje e vai juntar com a de daqui a pouco. A filha reclama mais um pouquinho, mas agora já mostra sinais de quem vai dormir um momento para a mãe poder enfrentar outro desafio maior. Ele reclama de alguma coisa qualquer e repara no cheiro da louça. Ela não ousa pedir se ele poderia lavar os pratos enquanto ela tenta terminar de faxinar e preparar algo para o jantar. Ela não ousa mencionar um beijo de cumprimento, uma tentativa de abraço e a filha- que ainda chora- não suporta ficar nos braços do pai, que na verdade é um estranho. Ela fecha os olhos, respira fundo, e pensa no final feliz. Ele vem, ela sabe que vem. Sorri como se a vida ainda pudesse melhorar na mesma rapidez com que piorou, pergunta como foi seu dia, recebe o silêncio como resposta e o vê virar as costas para acender um cigarro. Sozinha, ela engole o choro mais uma vez e decide de uma vez por todas que vai fazer o melhor com o que tem. Seja lá o que ela tenha. Veja só que ironia, ela pensava que as amigas que eram solteiras e com filhos sofriam.

Ela então pensa na ironia, nunca achou que seria mãe sozinha. Nunca imaginou que dividir o mesmo teto, nada tem a ver com fazer disso um lar.

 

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