Para membro do CWB Contra Temer, violento é o Estado e não Black Bloc

As manifestações contra o governo do atual presidente Michel Temer continuam por todo o Brasil. Milhares de pessoas seguem indo as ruas para clamar pela saída do presidente. Não são poucas as polêmicas do seu governo, e muito menos a sua impopularidade (veja a análise política do momento atual clicando aqui). Para buscar entender o real posicionamento dos movimentos que tem saído às ruas, fizemos uma longa e profunda entrevista com Rafael Alves, um dos integrantes do movimento CWB Contra Temer, movimento esse que organiza e coordena as manifestações em Curitiba.

PS.: PEÇO ENCARECIDAMENTE QUE SEJA ABERTA A MATÉRIA COM ESSAS PALAVRAS: PRIMEIRAMENTE FORA TEMER
Gostaria de me posicionar nessa matéria explicando que não sou o líder do movimento CWB Contra Temer, não temos líderes. Eu ajudo na organização. Não sou petista, não apoio o antigo governo da Dilma, principalmente por ela e o PT terem tido uma política criminosa em relação as causas indígenas. Por terem se consolidado por tanto tempo no poder e não se posicionarem realmente como esquerda, que sempre foi o que os seus eleitores em sua grande maioria gostariam.
– Rafael Alves

Erick Reis – Você é carioca e hoje milita em Curitiba, o que te trouxe pra cá?
Rafael Alves – Eu me mudei pra Curitiba há aproximadamente 11 anos. Vim pra estudar e em procura de um lugar mais acolhedor. O Rio era uma cidade muito caótica, bem complicada e difícil para me manter. Aqui sendo menor eu conseguiria um local melhor. Vim atrás de um sonho, acreditando que Curitiba era uma cidade realmente desenvolvida e mais moderna, na qual poderia aprender muito, mas as coisas foram bem diferentes do que pensei.

E – O que fez de você um militante de esquerda? E quanto as manifestações de Curitiba, como vocês começaram a organizar o ato?
R – Tenho muita influência da minha família. Além de ter vindo de uma família pobre, o que me fez sentir os problemas de desigualdade social na pele, tive muita instrução familiar. Minha mãe é assistente social aposentada pelo estado do Rio, meu pai trabalha com sem terra, comunidades quilombolas, tribos diversas na Bahia, numa região bem complicada, a qual tive oportunidade de visitar algumas vezes. Tudo isso me incentivou a estudar sobre causas, observar o sistema, a nossa base política, estudar ciências sociais, filosofia, ver muitos filmes e documentários sobre o assunto. Absorver arte e cultura brasileira e pesquisar sobre outros ambientes. Mas eu nem sabia que era um militante, fui descobrir isso com o tempo. Comecei a organizar as manifestações por ver o golpe se consolidando no congresso. Na primeira votação falando que o impedimento iria ser realmente julgado e a Dilma afastada, resolvi me movimentar sobre esse fato. Fui numa reunião do antigo Minc Resiste, que se tornou Cultura Resiste, pois trabalho na área cultural, e lá falamos sobre ocupar o Iphan e começar uma resistência dos membros da cultura. Mas pra mim não parecia ser suficiente, queria chamar o apelo popular para estar do nosso lado. Como conheço bastante gente por aqui, montei um evento de um ato Fora Temer e conversei com o Thiago Regis que estava montando outro. Unimos as forças dos atos e logo no primeiro tinha umas 4 mil pessoas ou mais, só com convocação através do Facebook.

E – Dentro das manifestações existe a presença dos Black Bloc, a organização tem alguma coisa a ver com isso?
R – Eu particularmente conheço os membros do Black Block de Curitiba, alguns outros membros também, mantemos estreito contato com todas as formas de resistência da esquerda nacional, desde sempre. Mas a convocação para o ato é aberta pra todos e a orientação do movimento não é ação direta, não é propor o que chamam de “vandalismo e depredação”, se fazem, na maior parte das vezes não temos controle. São milhares de pessoas marchando, muita correria pra organizar tudo. Acaba fazendo parte. Mas deixo claro que esse tipo de manifestação deve sim ser respeitado, existem milhares de ideologias diferentes, cada um tem sua orientação, se engana muito quem pensa que pichador é marginal, Black Bloc é vândalo. Talvez essas pessoas tenham muito mais consciência politica que todos nos juntos. Nossos conceitos de propriedade privada e patrimônio público são extremamente deturpados e excludentes, mesmo que sejam baseados em leis, em questões de ordem consideradas socialmente aceitáveis, acho que deveriam ser revistas. Conceitos como ética e moral, dificilmente são abordados nessas questões, e quando são favorecem alguns poucos. Violento é o Estado, violência é matar, deixar pessoas passando fome e justificar que não estudaram o suficiente, ou não se esforçam, como se fosse assim. Como se dependesse somente do esforço de cada um e não de um pensamento mais unificado e do esforço comum. Como se não houvesse boicotes constantes a milhares de pessoas que são consideradas minorias, mas que são na verdade maioria. Temos 54% de população negra no país por exemplo, olhe para o seu lado no seu trabalho e veja quantos negros trabalham com você. Agora olhe para cargos maiores e cargos que recebem mais e cargos que recebem menos e faça essa comparação. Isso por um acaso é culpa de falta de esforço? Pensar que falta esforço por parte da população negra de Curitiba é corromper a lógica, corromper os fatos.

E – Você tem sofrido ameaças, de que tipo são?
R – Aconteceram algumas ameaças específicas. Pontuais. Sofri ameaças por internet a minha integridade física. Pessoas falando que iriam me agredir fisicamente. As pessoas ficam nervosas com as questões mais polêmicas, ações diretas, Black Blocs, questões consideradas vandalismo, depredação ou violência. Acabam descontando em quem está mais exposto, fazendo parte da organização. Reitero que essa não é a orientação do movimento. Vamos pras ruas com todas, todos, pra pedir a saída de Michel Temer da presidência. É isso. Não tem muito mais. Não ajudamos as pessoas a se unirem pra atacar ninguém. Acredito que as ameaças venham de pessoas que estão perdidas, que pensam de maneira violenta, que não debatem e nem argumentam seus pontos. Se tudo fosse mais conversado, seria muito mais fácil. Acho uma pena que aconteçam esses fatos. A desinformação gera sérios problemas, a falta de comunicação ainda mais. Ao invés de apontar o dedo, poderíamos ouvir e pensar o que os outros têm a dizer, mas esse debate precisa ser de todos os lados. Se for apenas de um, não funciona.

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E –  Diante das ameaças, quais serão as providencias a serem tomadas?
R – Fizemos B.O. de todas as ameaças e serão movidas ações contra os que ameaçaram. Caso ocorra qualquer coisa comigo ou qualquer membro do movimento, todo mundo será acionado imediatamente, temos bastante controle sobre isso. Advogados que nos protegem e nos ajudam de perto. Estamos bem protegidos e seguros sempre.

E – As manifestações são partidárias? Existe algum partido por trás delas?
R – As manifestações não tem partidos sustentando, nem patrocinando, nenhum tipo de instituição. Não fazemos nem procuramos nenhum centavo, evitamos envolver dinheiro em qualquer situação. Até mesmo quando o pessoal está com sede ali na frente e precisa de água durante os movimentos, fazemos vaquinha na hora e nos ajudamos como podemos ou cada um paga o seu. Mas vale ressaltar que se partidos querem fazer parte, caminhar junto, conhecer as pessoas, tem livre acesso. A manifestação não é de ninguém, não tem um líder, não tem dono. Seria até interessante para os que acreditam em votação, eleições, urnas e afins, que partidos aparecessem e se explicassem por exemplo seus casos de corrupção. Quem quiser estar junto, estará junto, agora se todo mundo da marcha resolver colocar pra fora alguém com camiseta do PMDB por exemplo, como controlar? Se essa mesma pessoa resolveu andar junto e ninguém falar nada, o que fazer? As decisões são tomadas em conjunto e todas devem ser ouvidas e respeitadas.

E – Quais são as principais reivindicações dos atos?
R – Reivindicação é uma boa palavra, denota exigência. Acredito que em todo país os manifestantes estão unindo suas agendas e suas pautas. O principal é Fora Temer. É o que mais tem que ser discutido e debatido, as outras são agendas importantes tanto quanto de conscientização política, ideológica e afins. Apoia-se muito de uma maneira massiva as greves gerais. A Diretas Já é um tanto contraditório. Apoiamos em um ato, mas acredito que não vamos mais debater esse assunto. Temos muitos pensamentos contrários. Anarquistas por exemplo de todo o país, são extremamente contra Diretas Já. Eles não querem governo por exemplo. Essas ideologias devem ser respeitadas. Por isso as agendas secundárias devem ser muito analisadas e se possível nesse momento, não serem apresentadas. Serem debatidas durante os atos, terem palavras de ordem durante as manifestações, mas não serem a frente de nenhum movimento. Temos uma forte e muito necessária pauta que tange a causa feminista é extremamente necessária que seja colocada a frente, debatida e repensada a todo momento. É uma aula diária que ganho com as colegas desse movimento que deve ser respeitado e pautado. Mas reitero que o que deve unir e ser mais debatido no momento, o tempo todo, em todas as questões é o Fora Temer e se possível a Greve Geral. Pois a rejeição ao governo Temer é praticamente incontestável.

E – Qual é o recado que você deixa para a população brasileira?
R – Um recado maior e principal é: se amem. Amem mais. Respeitem mais. Tenham mais empatia com as pessoas. Cada um tem um processo, cada um tem uma jornada e vai descobrir com o tempo. Às vezes é muito difícil aceitar as condições alheias, mas precisamos entender, e caso a gente não consiga concordar, precisamos respeitar e mais do que isso, conversar e debater. As pessoas podem sim mudar de opinião, mudar como pessoas. Se tornarem mais íntegras, humildes e conscientes. É tudo parte de um trabalho, um processo constante. Isso pode ser inclusive aprendido nas escolas, é só a galera estar disposta a reformar o pensamento, ainda tem como melhorar. Olha é bem incerto o futuro. Não temos como prever tudo já que os momentos estão bem instáveis. Queremos que todos saiam as ruas e mostrem sua indignação com o que está acontecendo, que ninguém queira ser governado por alguém que nos retire direitos, que prejudique nossa vida e que ponha o Brasil num patamar tão arriscado. Queremos continuar com cada vez mais gente nas ruas. Ganhar uma força nacional. Algo que já estamos alcançando, mostrar como podemos ser influentes no processo democrático de um país.


O próximo ato contra o atual governo em Curitiba acontecerá no próximo dia 09. O manifesto será contra a reforma do sistema de educação do país. Saiba mais na página do evento.

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