A crítica e o caráter

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Foto: Andressa Barichello

Existe uma diferença muito importante que precisa ser entendida: criticar uma pessoa ou seu trabalho é diferente de difamar uma pessoa ou seu trabalho.

Em tempos de ânimos inflamados e redes sociais virulentas a diferença nem sempre é clara. Travestidas de “desabafos”, afirmações perigosas se transformam em rastilho de pólvora e comprometem junto aos desavisados a imagem de pessoas e serviços.

Na fluidez entre uma coisa e outra, o jeito é recorrer aos imperativos éticos: uma crítica aponta quem, como e explicita uma razão. Porque a verdadeira crítica tem compromisso com alguma verdade – nem que seja aquela verdade precária de quem critica. A verdadeira crítica bota fé em si mesma; é corajosa, transparente, franca. Tem caráter acusativo tantas vezes, é verdade, mas por ser declarada é sempre um convite ao contraponto e, quem sabe, até ao desmentido. A verdadeira crítica pode até perder-se num tom agressivo, mas convoca ao outro a que dela diga alguma coisa.

A difamação não. A difamação tantas vezes usa o artifício da indireta: identifica sem caracterizar, caracteriza sem nomear – porque, covarde, se sabe incapaz de bancar um desmentido. E porque no fundo não pretende falar do outro, mas usa o outro como recurso para defender algo de si. A difamação come pelas beiradas, manda recado, pincela, induz.  E sua vagueza ambiciona a chance de consolidar-se como versão única. A difamação, portanto, não apela pela presença do outro – ao contrário, é um apelo a aniquilação do outro enquanto voz.

Não é fácil viver a experiência da verdadeira crítica porque ela demanda mais esforço. O exercício começa, talvez, no momento em que conseguimos transformar a queixa em apontamento, o comentário maledicente em pleito concreto. Quando conseguimos levar nossa insatisfação diretamente ao destino, sem intermediários. Quando assumimos, enfim, o risco do embate e principalmente o risco do debate.

A verdadeira critica dá sempre a conhecer o criticado – não porque o defina em palavra última, mas porque o inclui na roda ao identificá-lo: nome aos bois, diriam alguns. A verdadeira crítica dá a conhecer-se ao criticado – não porque esgote toda sua potência em palavras, mas porque se apresenta de cara limpa, por mais frágeis sejam seus argumentos lógicos.

A verdadeira crítica, em última instância, dá a conhecer o caráter de quem a faz. Recuse créditos aos detratores – essa ainda é a forma mais eficaz de estimular em todos um modo mais feliz e honesto de expor seus pontos, suas questões.

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