Gosto das lembranças, mas prefiro o momento

O que eu faria se pudesse retornar alguns anos de minha vida? Não sei, talvez eu voltaria para a minha infância, lá pros meus 4 ou 5 anos. Pros 6 não, com 6 anos presenciei a separação dos meus pais. Nenhuma criança merece vivenciar essa experiência e eu juro que não gostaria de vivenciá-la novamente. Mas sim, voltaria aos meus 4 anos, com minha família unida ainda. Naquela época já existia o meu irmão, com 1 ano e pouquinho. Era gorducho, andávamos de lá pra cá. Ele segurando a minha mão, sempre. Eu era tipo o porto seguro dele. Onde eu ia, ele ia atrás. É, eu queria voltar para o meu aniversário de 4 anos, aquele que teve o tema da Branca de Neve. Ou podia ser até o aniversário de 5, ele foi dos Dálmatas. Veja que eu fui uma criança vidrada nos desenhos da Disney. Mas não podia ser diferente, até porque eu tinha grande parte desses desenhos em VHS, ou fita, como gostava de chamar.

Bom, talvez eu quisesse voltar para os meus 9/10 anos também, época em que estudei num dos melhores colégios que já existiram nessa cidade. Sim, existiram. No passado. Ele fechou, infelizmente. Faliu. Quando soube, que aperto no peito. Tive tantos momentos bons lá. Tantas professoras apaixonadas pelo que faziam. Foi lá que tirei a minha primeira nota vermelha da vida. Na 5ª série. 4ª, não me lembro bem. Higiene e Saúde, se não me engano. Quem é que tinha essa matéria no currículo escolar? Pois eu tinha. E tirei vermelha. Mas mesmo assim, eu voltaria sem pensar duas vezes para essa fase. Voltaria só pra dar um beijo em cada profissional que já pisou naquele colégio. Mais ainda: eu voltaria para agradecer a paixão que eles emanavam ao dar uma aula ou um cházinho na coordenação. Não sei, mas talvez tenha sido dessa paixão que criei as minhas próprias. Por ciências. Por matemática. Por português. Pois bem, desde pequena já era indecisa quanto a área que mais gostava para, num futuro, exercê-la profissionalmente. Eu sempre gostei de um pouco de tudo. E não vejo mal algum nisso.

Mas, e se eu voltasse para os meus 13/14 anos? Não foi de todo ruim. Quer dizer, tirando as inseguranças que eu tinha quanto ao mundo e a mim mesma, foi uma fase proveitosa. Conheci vários amigos que trago comigo até hoje, conheci também bandas que considero como minhas favoritas até hoje. Aprendi mais sobre respeitar e ser respeitada. Conheci meus próprios limites e sonhos. E alimentei-os. Cada sonho que tive. O de me formar, de entrar numa faculdade, de ter o meu próprio dinheiro, ir aos shows e conhecer as bandas que tanto admirava, aperfeiçoar a minha escrita – que já naquela época implorava para ser mostrada ao mundo -, ser eu mesma. Já naquela época, inclusive, insistiam em me dizer o que eu devia ou não fazer. As pessoas insistiam em me dizer como eu tinha que ser, o que eu deveria vestir, como deveria me portar. Por um tempo eu até dei bola, mas depois de um tempo não mais. Então cresci.

Fora esses três momentos, eu poderia voltar também pra um outro mais: o de quando conheci a minha banda favorita. Ou talvez no momento em que dei meu primeiro beijo, minha primeira declaração de amor, o primeiro elogio que recebi sobre algo que criei. Naquele que tive o êxtase, ou naquele que me partiram, me deixaram, me abandonaram. Nem só de momentos bons a nossa vida é feita, né? Ao contrário do que eu pensava, tive que encarar coisas cruéis e que jamais imaginei que pudessem existir. Com o passar dos anos, as responsabilidades me encontraram, as contas, o cansaço, a cobrança da sociedade em você ser extremamente bom naquilo que decidiu fazer. Mas também fui encontrada pelo apoio, pela força, pelas palavras de carinho de cada um daqueles que conheci há anos e que permanecem aqui até hoje.

A vida me encontrou, os desafios são constantes, os dias não são fáceis, mas se eu tivesse que realmente escolher um ano para voltar e revisitar o passado, muito provavelmente eu pediria para que, mesmo assim, permanecesse no presente. Não por não querer reviver momentos, mas sim por achar que no passado fica o que já foi e no presente se encontram as novas oportunidades de um futuro tão bom quanto – ou até melhor – o passado foi.

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