Eu vi a sua foto por aí e lembrei de Alice

Eu vejo uma foto sua perdida em algum canto dessas benditas redes sociais que devem ser a nova ferramenta do destino para nos lembrar do que é bom e começo a sorrir saudosa. Eu queria discar o seu número, dizer que gosto da sua camisa azul escura e que já usei aquele seu suéter numa noite fria. Quanto tempo faz que não te ouço? Tanto tempo. Quanto tempo faz que eu não reparo nas suas mãos nas minhas costas em lugares públicos, dando a entender que de alguma maneira aquilo era proteção. Muito tempo. Será que você já aprendeu a lavar a louça? Acho que nunca saberei. Mas uma das coisas que eu jamais irei esquecer é da reação que a sua voz provoca em mim quando eu te ouço. Ou ouvia. Eu já não sei mais. Na foto você sorri ao lado de amigos, um universo que eu nunca fiz parte. Nunca quis dividir você com outras atenções e olhos curiosos que querem descobrir as linhas que eu olhei de perto, desenhei com a ponta dos dedos e da língua, devorei em silêncios e vontades. Não. Nunca quis nada além de um par de taças, um cabernet, nós dois e o mundo lá fora incapacitado de nos alcançar. Sua mão no meu cabelo. Eu sem disfarces e meias palavras. Faz tanto tempo.

Eu sempre me senti um caso a parte, um momento avulso das rotinas, um detalhe bom no meio de tanta coisa que cruza nossos caminhos e não têm explicação. Me senti assim, porque você foi tudo isso. Sempre será. É por isso que mesmo depois de tanto tempo eu sinto que poderia pedir para você me reinventar mais vezes. Me tornar nova peça que pode ter encaixe em algum lugar, porque eu sei, nos teus intervalos entre uma boa postura social e outra, eu encaixo perfeitamente. Nos teus olhos com cor de estação do ano, eu me encontrei várias vezes. E gostei. E gosto. Olha, eu gosto muito. Ou gostava. Eu já não sei mais. Gostava de pensar como dizer para você que o mundo inteiro é um caos preguiçoso, assumir que sou insatisfeita por essência, ansiosa por opção e talento e você não vulgarizar nada disso. Gostava de indicar a música nova dos cantores quase anônimos que eu sigo, falar do novo lançamento dos argentinos pro cinema e citar um pouquinho de Bukowiski para você me achar inteligente. Por favor, lembra que eu sempre fui inteligente demais para insistir em ficar na sua vida contra a sua real vontade. O problema é que eu sempre soube que você jamais me mandaria sair ou pegar as minhas expectativas todas e seguir outro caminho. A sua delicadeza em me deixar em pedestais que eu nem mereço não permitiria tal atrocidade sentimental, mas olha, eu sempre fui inteligente demais para não insistir em ficar num lugar onde eu não consegui mais me sentir desejada. Daí eu fiz exatamente isso, peguei as minhas coisinhas, expectativas, coisa e tal e fui embora. Me desculpe não explicar muita coisa, cê sabe que eu sou assim.

As mensagens diminuíram, o respeito se manteve, o coração continuou batendo mais forte nessas coisas do destino ficar moderno e usar da tecnologia para nos lembrar das paixões boas que ficam por tempo contado na vida da gente. Mas eu ainda sinto como se eu pudesse deitar no teu peito mais um minuto, te convencer que eu valho a pena, eu valho muito! Só deixar claro e te tranquilizar mostrando que eu não quero mais do que isso. O vinho. O par de taças. Só nós dois e o mundo sem poder nos alcançar. Contar vez ou outra que quando eu vejo uma criança eu lembro da pequena Alice que nós conhecemos certa vez. Dizer que tudo bem agora você ser uma foto avulsa numa rede social qualquer, eu ser uma romântica avulsa num punhado de textos e desabafos que talvez não cheguem até seus ouvidos. Só dizer, que a sua blusa ficou ali na gaveta, tem um par de meias também, então, se você quiser e sentir falta, só traga o vinho. Seu lugar se manteve intacto, dentro e fora de mim. Me conta as novidades. Me fala das histórias tristes. Sorri comigo porque a gente sabe fazer isso como ninguém.

Me mostra que nem faz tanto tempo assim.

Que foi mesmo o destino.

Que ainda tem lugar pra mim.

 

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