Eu não te amo e um copo d’água

A porta do meu banheiro me deixa de cara com o espelho quando eu a abro. Eu acho essa organização meio sádica, porque quando você levanta cedo para trabalhar e tomou um porre na noite anterior- como eu fiz na história em questão- a primeira cara que te condena é a sua. São os teus olhos assustados ao verem o reflexo desprezível que você revela, e isso, meus caros, ferra com qualquer um e tende a potencializar a ressaca que virá em seguida. Mesmo assim, mesmo com meu cabelo tendo um cacho teimoso que ia na contramão de tudo e com o rímel da noite anterior que não saiu inteiro e foi borrando até meu queixo, eu consegui ter um pouco de compaixão comigo e lavei o rosto com aquele sabonetinho anti-acne que a gente finge que resolve as consequências das más escolhas. Mesmo com o roxo abaixo na região das olheiras, que parecia um soco bem dado, mas era só vestígios do choro que durou até às 3h da manhã, eu tive mais um ato de caridade e passei maquiagem, um bom batom vermelho para tirar o foco da minha íris vazia. Do meu incessante buscar algo em qualquer lugar que eu não encontrarei nunca, porque eu amanheci mais perdida do que os últimos 5 anos que eu venho dizendo que preciso me encontrar. Porque enfim ele me perdeu e eu não sei mais nem o número do RG, não lembro do dia em que eu não o pertencia. Eu sinto sede.

É isso que acontece quando alguém vem com um caminhão de verdades sem filtros para te dar um ato de misericórdia e matar de vez as esperanças que você carrega dentro do peito. Fechar a história, dar um tiro de piedade, parece bonito na teoria, mas será que você está preparado para ouvir tudo, cada detalhe do “não amor” que não lhe foi dado? Eu descobri na prática que não, talvez nem todos estejam. Você amanhece andando e com sede, mas parte de quem você foi morreu ali e vai remoendo as datas e detalhes colocados na mesa. Não foi amor. Ficou um letreiro na sua testa: NÃO FOI E NUNCA SERÁ AMOR. Resumir uma história nisso, é mais doloroso do que se imagina. Não houve amor, porque “Maria amou José que amou Renata que amou João que amou Francisca…” e fim. Não era amor, ponto final. Não teve amor, supere. Ninguém é responsável pelas expectativas que o outro cria, então, cada um lida com suas feridas. Simples. É um novo ser que nasce em questão de horas e de maneira dolorosa, agora é essa sua realidade: Lide com isso. É como se meus dentes bem alinhados pudessem ser cuspidos na palma da mão, porque a violência das verdades foi avassaladora. Saber que você não foi nem coadjuvante dessa história que foi tudo, é o pior dos prêmios e não consola. É como se os órgão vitais estivessem se recuperando, não consigo comer, não consigo socializar e se for para eu tomar alguma atitude, eu trinco. Mas tenho sede. Meu braço cai na calçada se eu realmente tiver que responder algo concreto sobre qualquer coisa na vida. Eu brinco com os colegas de trabalho, eu rio das piadas do cobrador do ônibus, mas só quero voltar para casa. Um colo seguro, meus amigos, quero meu lar. Meu cheiro em algum lugar. E um copo d’água.

Esse é problema de amar agora- feito gente grande- eu já não sou mais criança travessa, não sou mais adolescente apaixonada e tenho que encarar a rejeição de maneira adulta, com a consciência de que a gente escolhe o que vive. Comecei tomando um porre, chorando para o taxista que me trazia para casa de madrugada. Depois comi um pote inteiro da boa e velha Nutella, dormi sem tirar maquiagem. Meus atos de revolta são infantis, me julgue. O queixo com rímel, os cachos espalhados e as marcas do choro intenso. Bem madura, bem adulta, bem do jeito que tem que ser. Agora estou aqui, me encarando no espelho do banheiro sádico que eu terei que viver por mais alguns dias. Tô tendo meus surtos de maturidade, tô lavando roupa, faxinando até o suor ensopar a minha roupa e eu fingir que nada daquilo foi lágrima de vergonha, de cansaço, de inconformidade. Fazendo aquela pose do “eu nem queria mesmo”. A gente cresce com tudo isso? A gente supera e olha para trás com ares de “venci”? Não sei. Saí da conversa dizendo que tudo bem o amor não correspondido. “Acontece, fazer o quê?”, mentira. A verdade mesmo é que eu tô pensando no próximo porre e nos outros 250 que virão. A verdade é que eu não queria ter acordado nessa manhã com 20 e muitos anos nas costas, me perguntando se eu não aprendi nada nessa vida para ter caído no mesmo buraco mais uma vez.

Saudades dos meus 15 anos, onde tudo se justificava com a inexperiência. A maturidade é mesmo um algoz, que exige essa pose de lutador levando soco na cara e não te deixando cair na lona. Educados, olhamos para nossos agressores com ares de quem deseja que eles tenham uma boa saúde e cortem o carboidrato. Mentira das boas para saírmos com um bocado de dignidade depois da rejeição. Por enquanto, eu fico com o sabonete anti-acne e a desculpa de que eu vou aprender muito com tudo isso. Ao menos é o que eu espero, se for para ser sincera. Agora, nesse momento, eu só vou começar pelo copo d’água e tentar mudar de lugar o espelho no banheiro.

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