As mentiras diárias que você conta para sobreviver

Uma das minhas cenas favoritas do cinema nacional tem Fernanda Montenegro me fazendo chorar honestamente ao defender o pobre João Grilo de ir para os braços do demônio no filme “O Auto da Compadecida”. A obra, quando li, me tocou imensamente, mas ao ver Maria personificada e com aquele discurso tão cru, tão inteiro sobre as fragilidades humanas, faz com que de alguma maneira eu me perdoe e me purifique. Maria, mãe de Jesus, começa seu discurso de advogada das almas com ares de desespero, mas falando uma verdade simples do ser humano: “Você mentia para sobreviver”, e é ali que eu realmente me identifico de milhares de maneiras.

Você pode nem acreditar em santos, não ter uma crença. Mas vamos olhar a frase de Maria com imparcialidade religiosa, apenas a simplicidade da afirmação. A gente mente todos os dias para conseguir sobreviver só mais um minuto. Seja no trânsito caótico, na vida eufórica, dentro das nossas ansiedades injustas. A gente mente que o salário alto na empresa bem localizada vai comprar a felicidade, que o apartamento pago é a razão do sorriso, que a relação digna de propaganda de margarina- sem sal e sem glúten- é o que você sempre sonhou e vai acreditando, fazendo disso uma verdade meio seca, meio dolorosa demais. Até sabe no mais íntimo que isso tem uma parcela grande de ilusão, que os seus reais sonhos ficaram num lugar lá no fundo, sufocados pelas expectativas alheias. Mas a gente inventa esse bando de prioridades e objetivos para conseguir viver com um pouco mais de sobriedade e dignidade perante as cobranças. Insiste em vestir essa fantasia, ainda que o tarja preta fique ali ao lado, na cabeceira da cama. Mentimos para sobreviver, para existir um pouco nessa vida que não espera a gente respirar entre uma pancada e outra. Que nos cobra certezas, boas escolhas e corpo sarado para o verão e não nos permite mostrar a ferida e se orgulhar de conseguir simplesmente conseguir estar em pé.

Onde foi parar sua coragem de comprar uma passagem por impulso, enfiar uma mochila nas costas e viajar? Quando foi que você cumpriu a promessa de cometer uma loucura de verdade? Roubar o beijo, amar aquela pessoa que te devolve a vida quando está ao lado, apreciar os silêncios, fazer barulho quando isso for politicamente incorreto? Você pode sim, mentir pra todo mundo e passar o final de semana com pessoas que te façam bem. Ir contra o protocolo vez ou outra, você pode e deve. Essa maturidade toda de enfrentar tudo de frente, nos destrói e é na maioria das vezes falsa. A mais falsa realidade que existe é aquela que a gente veste como se realmente nos coubesse e fica se contorcendo para fingir conforto. Não, você não superou aquela relação e ela é sim importante para a sua vida, isso não faz de você um perdedor ou alguém apegado demais ao passado. As pessoas têm essa mania de enfiar o tempo em tudo, dar prazo pro sentimento curar. Perder o emprego dos seus sonhos doeu mais do que se imagina, vender a sua casa custou mais do que simplesmente mudar de lugar, as histórias que se findam ou que mudam, tudo nos toca de alguma maneira e em nenhum momento ninguém deveria sentir vergonha de assumir que é passível de cansaço perante os outros. Ninguém deveria mentir para sobreviver, morrer na secura das ansiedades, com vontade de se molhar na chuva. A gente deveria ser o que é e ter orgulho de enfrentar o reflexo no espelho.

Mas tudo bem se agora não dá, quem sabe na semana que vem. Cê não tem obrigação de ler um texto num blog e sair por aí vendendo casa, carro, dando adeus para a relação que está desgastada e mandando seu chefe tomar em lugares impróprios. Não. Tudo pode começar de mansinho, você deitando na cama e assumindo que mentiu para sobreviver hoje, colocando na balança se anda valendo à pena vestir essa máscara e se quem está ao seu redor suportaria te ver em carne viva, na nudez de alma. Pesar até que ponto a zona de conforto está te preenchendo. Quem sabe assim, as cargas sejam mais amenas, os sonhos possam ter um punhado de chance de brotar nesse chão árido que nos colocam todos os dias e nos cobram frutos. João Grilo mentia na maior parte do tempo para conseguir ter o que comer, no mínimo. A gente mente pra alimentar um ego, um status, versões nossas que nem nós suportamos, agradar gente que nem sabe o nosso café favorito. Coitado de João Grilo, de você e de mim. Morreremos todos de fome e ninguém nos conhecerá de verdade se continuarmos assim. A verdadeira realização pessoal, no final das contas, deve ser um acúmulo de verdades que nós conseguimos conviver e suportar. Uma tentativa nada suave de ser autêntico o máximo possível, para que então, saibamos quem estará no final do dia segurando nossa mão mesmo sabendo das carências que nos afligem.

É uma mentira atrás da outra que guarda em si uma esperança pequena de que no final disso tudo, ainda haja alguém por perto pronto para nos defender.

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