Quem você mais ama pode morrer hoje

Quando meu pai faleceu, lembro de por muito tempo não apagar meu último email que eu havia enviado para ele dias antes de sua partida. Eu perguntava algo sobre ele não ter retornado as minhas ligações e perguntava quando ele iria para Curitiba nos visitar, já que ele estava há um ano em São Paulo. Fiquei sem resposta, não deu tempo. Ele talvez não tenha nem aberto o email, já que tinha sido internado naquela noite. Não deu para dizer mais nada além de que a gente estava começando a se entender, depois de anos tentando se alinhar. Não deu tempo nem de realmente se entender e se alinhar como queríamos, a gente só viu o projeto começar a dar certo e “bum”, acabou ali. 51 anos, uma história famosa, uma luta na bandeira e planos para o futuro, mas chegou ao fim numa terça-feira nada a ver, no meio da tarde. Não tinha mais nada a ser dito ou acertado ou resolvido, porque agora acabou. Ele morreu, não volta no domingo e não me respondeu se passaria o Natal conosco. Alguns natais passaram desde então.

Foi depois disso que aprendi a conviver mais intimamente com as despedidas definitivas e principalmente: Repentinas. A morte é uma injustiça no meio da agenda, uma certeza sem data de chegada. Ou partida. Depende qual lado você fica nessa história. Ela pode até dar os sinais de que está chegando em alguns casos, quando um tratamento médico está sendo feito e não mostra mais resultados, quando uma pessoa já avisa antecipado que o quadro clínico é irreversível. Você espera pelo milagre, você pede para ser visto no meio da multidão por Deus, pelos deuses ou seja lá no que você creia- ou não creia- mas nem sempre isso acontece. Nem sempre a morte é tirada milagrosamente do caminho, seja porque ela tinha que acontecer, porque é a lei natural da vida, porque a evolução propõe, não sei. Só sei que ela simplesmente acontece e os boletos ficam na porta, as camisas não foram passadas, você deixou seu peixe sem comida, seu cachorro sem um novo dono, não avisou os amigos e nem viu o email dos seus filhos. Quem fica, se encontra mais perdido ainda. E agora? Sobrou um prato na mesa, um lugar no carro, sobrou a sopa da janta. Cê vai tentando imaginar como seria se a pessoa ainda estivesse ali, vai se apegando no que tem em volta, em quem está por perto. Morre junto. Uma parte sua vai para nunca mais voltar, para nunca mais se recompor e reconstruir. A gente entende- ou tenta ao máximo entender- que a vida tem seu ciclo e que assim seria melhor. Mente. Finge. Questiona. Se revolta. Olha para o lado, cadê? O que eu faço com os planos todos e a vida inteira que tinha pela frente? A gente tava começando a dar certo, se alinhar… fim.

Essa semana falei com uma amiga que está com um parente doente sobre o fato de que todos temos uma escolha diante dessas situações: Decidimos se viveremos um dia à mais ao lado desse alguém ou vamos considerar um dia à menos. É uma questão de perspectiva. O copo meio cheio ou meio vazio, você já deve ter visto esse exemplo por aí. E, ao meu ver, talvez seja isso que fica e que também se vai nas nossas mãos quando tudo acaba, quando essa indecente moça chamada Morte vem e lança seu pano definitivo sobre as almas: Um acúmulo de dias vividos e que serão o resultado final do que deixamos e levamos. É só isso. Nem todos os bens que você acumulou, nem todo o dinheiro que você deixou para os herdeiros e nem todas as fotos que você tirou, irão suprir quem você realmente foi. Quem você deixou que o mundo conhecesse. É difícil, você não tem como prever e não existe uma receita de perfeição onde todos sairemos ilesos dessas cargas. A gente faz planos para semana que vem, mas nem sabe se chegará na semana que vem. Defende as causas, mas nem sempre as causas te defendem. Muitas vezes é uma estupidez, falta de atenção. Fulano saiu de casa e esqueceu a chave, voltou e morreu atropelado. Bebeu e dirigiu. Entrou no rio e pegou uma correnteza forte. Bobagens do tipo “se afogou com amendoim e não conseguiu respirar mais”. Meu pai teve um câncer, um estúpido e idiota câncer que não deu tempo dele se entender e alinhar com a família, nem responder um email de final de semana. E a gente perdeu no meio do caminho as chances, os momentos cruciais que fariam toda a diferença. A morte é um susto, uma notícia de última hora, um aviso que não avisa e não cura e não acalenta em nada o coração de quem tem que enfrentá-la do lado de fora do caixão. Um corte inevitável que nos gera uma esperança de que haja mais do que o “aqui e o agora”. Existem teorias, estudos profundos e colos para nos acolher e amenizar essa estrago todo que a morte gera, mas nenhum deles ainda descobriu como pular a parte da total perplexidade que essa partida deixa como rastro.

Eu escolhi enfrentá-la  olho no olho e como um doloroso “até logo”. Me conforta nos dias de crise e questionamento. Por enquanto, decidi também que sempre terei meus emails respondidos e verdades ditas. Eu não tenho nenhuma certeza sobre a semana que vem.

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